sexta-feira, 12 de junho de 2026

Manivelas e manípulos

Por vezes, sinto necessidade de mudar de cadeira do escritório. Faço-o quando ela começa a ser incapaz de me poupar as costas. Por norma duram muitos anos. A que tenho terá uns quatro anos. Não sei bem. Talvez, na altura da compra, me tenham explicado o funcionamento de todas aquelas manivelas e manípulos com que essas cadeiras, mesmo por baixo do assento, são decoradas. Ela veio para casa já afinada à minha posição e tem cumprido, com esmero, a sua função. Se me doem as costas, a culpa não é dela. Contudo, havia uma sombra. Por mais que mexesse nas  manivelas e manípulos, as costas da cadeira eram inamovíveis. Sonhava, por vezes, recliná-la para dormir uma sesta. Nada. Pensava: sou estúpido. Ou comprei uma cadeira que não mexe as costas, ou não consigo desvendar o modo como isso se faz. Ainda por cima, com larga experiência em cadeiras que não recusaram, em momento algum, inclinar-se. Tinha desistido. Hoje porém, inadvertidamente, mexo num manípulo. Deslizou. Fiquei curioso. Procuro rodá-lo. Consigo e, milagre, as costas da cadeira cedem, e eu reclino-me como se fosse dormir. Claro que não fui. Decidi escrever este texto. Não interessa a ninguém, mas assinala o momento em que descubro como posso dormitar com mais comodidade à secretária. As minhas relações com a cadeira eram tensas, mas apaziguaram-se, apesar de ela ter sussurrado qualquer coisa sobre a minha estupidez. Que burro, terá dito. Perdoo-lhe, desde que continue a reclinar-se. É preciso estar focado no que interessa.

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