quarta-feira, 10 de junho de 2026

Buracos no tempo

Quando saí, hoje de manhã, não havia gente pelas ruas. Aproveitaram o feriado para se esconderem, para se retirarem da praça pública. Talvez seja para isso que servem os feriados. São esconderijos no tempo. Abrem buracos na teia do calendário e as pessoas, caso tenham siso, aproveitam-nos. Já ninguém – isto será uma generalização precipitada – distingue os feriados religiosos e o cívicos. Olham para eles como buracos do tempo e ficam gratos. As pessoas cansam-se de exibir o rosto aos outros, de lhes mostrar o corpo e de ter de gastar palavras. Benditos feriados. Contudo, este é um equívoco. O dia de Portugal devia ser o 5 de Outubro. Foi a 5 de Outubro que começou a Monarquia portuguesa, foi a 5 de Outubro que começou a República portuguesa. Dito de outra maneira: foi a 5 de Outubro que Portugal começou e foi a 5 de Outubro que Portugal recomeçou com outra cara. Talvez já tenha escrito isto. Desde 2017 e ao fim de 2560 entradas, é possível que não pare de me repetir. Se o fiz, ninguém quis saber e pôs fim a essa irracionalidade de um país nascer numa data e ter o seu dia noutra. Nem acabava com o 10 de Junho. Era dia de Camões e da Língua Portuguesa. Contudo, os agentes políticos desconfiam dos portugueses, têm medo de que se revoltem por haver um dia dedicado apenas a um escritor e à língua que ele inventou. Em resumo, estou a ficar um velho rabugento, a protestar com coisas que ninguém quer saber, nem eu, nem Camões, nem Portugal, nem a Língua Portuguesa, coitada, martirizada pelo Acordo Ortográfico de 1990, que a rebaixou de tal modo que ela perdeu o ânimo e nem protesta. Mas devia.

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