É inusitado um filósofo – o canadiano Charles Taylor – começar com uma confissão, ainda por cima uma confissão de impotência, um tratado. Não será preciso, porém, andar há muitas décadas sobre este planeta para saber que, no momento da confissão, a impotência está ultrapassada. Trata-se de uma das suas mais importantes obras Sources of the Self (As Fontes do Self, na tradução brasileira). O Prefácio começa assim: Foi muito difícil para mim a redacção deste livro. Ela se prolongou por vários anos, e mudei algumas vezes de ideia quanto ao que deveria ser nele incluído. Isso se deveu, em parte, ao motivo tão comum de que, por um longo tempo, eu não tinha a certeza do que queria dizer. Ora, o que me interessa não é a confissão do autor, mas a sua experiência de não ter a certeza do que queria dizer. Isso acontece comigo sempre que me sento para escrever seja o que for. Não sei o quero dizer. Não tenho objectivos, não tenho um alvo a atingir. Começo a escrever e a escrita vai ocupando o seu espaço. Esta história confessional de Taylor deve ser interpretada de modo metonímico. Toma a parte pelo todo. O todo é a vida, a parte é a escrita. Posso dizer que não apenas nunca sei o que quero dizer, mas também nunca soube o que queria da vida. Escrevi-a sem objectivos, conforme os vocábulos me surgiam. Contudo, isto não é o mais grave. Mais grave do que uma pessoa não saber o que quer da vida é não saber o que a vida lhe quer. Suponho que a vida ao trazer alguém a ela há-de ter alguma finalidade, há-de querer alguma coisa daqueles a quem chama. Tenho meditado não poucas vezes sobre isso e contínuo como no princípio. Não sei o que a vida quer de mim. Chego mesmo a cair na tentação céptica de dizer que é impossível saber o que vida quer de quem quer que seja, para não falar dos momentos mais escuros que, num ateísmo biológico, nego obstinadamente que a vida queira alguma coisa de alguém. E se ela não quer nada de mim, o mais sensato é não querer nada dela. Não lhe pedir nada, ignorando-a na desfaçatez do seu silêncio. Hoje é domingo, o sol brilha. O vento faz danças as folhas das acácias, enquanto os pássaros meus vizinhos cantam. Parecem felizes por não saberem o que querem da vida ou o que a vida quer deles. Voam e cantam.
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