Acabei de ver o jogo de futebol. Como a maior parte dos portugueses, estive do lado de Cabo Verde e contra Espanha. Esta posição, porém, tem raízes históricas e raízes morais. As morais dizem respeito à propensão que sentimos para, num combate profundamente desigual, tomar partido pelo mais fraco. E Cabo Verde é infinitamente mais fraco do que Espanha. As raízes históricas também são óbvias. Cabo Verde é uma espécie de filho de Portugal, enquanto a Espanha é o nosso inimigo histórico, mesmo que nos digamos irmãos, ou talvez por isso. Os conflitos entre irmãos são dos piores. Uma derrota de Espanha – empatar com Cabo Verde é uma derrota – é sentida quase como uma vitória de Portugal. Não se pense, porém, que este narrador odeia Espanha. Pelo contrário, gosta imenso de Espanha, das cidades espanholas e da forma como vivem os espanhóis; mas nem por um instante queria estar sob o jugo de Castela. O jogo, claro, não foi grande coisa, mas passei duas horas bem passadas, a ver o pequeno David domesticar o grande Golias. Foi muito mais interessante do que ver a Alemanha esmagar o minúsculo Curaçau, uma violência indecente. Esperemos, porém, que não acontece a Portugal, no jogo com o Congo, o mesmo, ou pior, do que aconteceu a Espanha.
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