De uma das estantes, retirei o romance A Atenção, do italiano Alberto Moravia. A obra foi publicada em Itália em 1965 e o exemplar que possuo é uma segunda edição, o que deverá ser lido como segunda impressão, da tradução portuguesa, impressa em 1969. Comprei-o num alfarrabista online há tempos, nem sei bem quando. Vinha com as folhas fechadas. O facto de ter mudado de dono não lhe alterou o estado de virgindade, pois as folhas continuam fechadas como estavam, mas mais velhas. Sinto o dever de abrir o livro, mas a sua condição de intocado tolhe-me os movimentos. Se lhe abrir as folhas, nunca mais voltará a este seu estado intocado e, tanto quanto consigo compreender o mundo dos objectos, não ganhará nada com a minha acção. Eu, sim, ganharia a possibilidade de o ler. Pergunto-me qual o dever que será moralmente aceitável seguir. Manter o objecto no seu estado de pureza, como uma virgem consagrada? Cultivar o meu espírito com a leitura? À partida, a decisão parece fácil: o dever de me cultivar tem prioridade sobre a integridade do objecto, ainda por cima de um que foi produzido com o propósito de ser aberto. Isto, porém, é apenas um lado da equação. Será que o objecto sofre ao sentir a dilaceração das folhas que estavam unidas? Não se queixará, claro, pois terá uma natureza heróica, mas as feridas nunca cicatrizarão. Talvez a cultura do meu espírito seja menos importante do que o respeito pela coisa, pois nunca se sabe o que é uma coisa. Se eu for tratado como uma coisa e for dilacerado, não gostarei. Imagino que ao livro lhe aconteça o mesmo. Levanto-me, pego nele e, com cuidado, coloco-o onde estava. Ele não me agradeceu, o que me perturbou, mas já estou recomposto.
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