Não fora ter recebido um telefonema da secretaria dos Bombeiros Voluntários locais, não tinha qualquer assunto relevante para narrar. A minha vida é uma desrelevância contínua. Quando vi, no ecrã do telemóvel, a identificação da associação de bombeiros, estranhei. Não a frequento, não tinha requisitado nenhum serviço de ambulância. Atendi, expectante. Afinal, foi só para me lembrarem que estou longe de ser um jovem rapaz. Uma menina da secretaria, com uma voz simpática e bem-soante, perguntou-me se eu queria, no dia x, estar no sítio y, numa cerimónia de aniversário da agremiação. Não percebi a razão do convite, mas não disse nada. É que, continuou a voz do outro lado, fez 50 anos de sócio. É para receber o diploma e o pin. Eu sabia que era sócio dos bombeiros. Todos os anos pago as quotas. Não imaginava, porém, que já o fosse há meio século. E não me tornei sócio em criança, nem na adolescência. Disse que sim, que teria muito prazer em estar na cerimónia, apesar de nunca ter querido ser bombeiro, nem mesmo naquela altura em que os rapazes de antigamente queriam ser bombeiros ou polícias. Isto é coisa que ouvia, mas, na verdade, nunca conheci nenhum rapaz do meu tempo que tivesse essas preferências, aliás louváveis. Eu, quando tinha idade para querer ser bombeiro ou polícia, tanto quanto me lembro, não queria ser nada. Aliás, nunca quis ser nada. E agora cheguei ao tempo em que não sou efectivamente nada. Realizei um sonho de infância.
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