quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Da bondade da etiqueta

Ontem, afirmei aqui, ainda que de passagem, que uma coisa é a etiqueta e outra é a moral. Ora, discordo em absoluto da minha afirmação. Isso acontece-me com regularidade, várias vezes ao dia. Pegar correctamente nos talheres parece não ser uma regra de moralidade. Pessoas que sabem como usar os talheres podem ser uns refinados filhos da mãe, enquanto outras, que não sabem o que fazer com eles, podem ser as pessoas mais bondosas do mundo e as mais moralmente sãs. Não é isto um poderoso argumento contra a minha crença de hoje sobre etiqueta e moral? Claro que não. Se seguirmos as regras da etiqueta, podemos não ser grande coisa, mas tornamos o mundo mais agradável e habitável pelos outros. Ora, este cuidado com o prazer dos outros em habitar o mundo é completamente moral. Desconfio que as escolas ensinam inutilidades sem fim, desde que a criança entra no Jardim de Infância até que o adulto conclui o seu terceiro pós-doutoramento, ainda que desempregado. Só não ensinam o essencial: as regras de etiqueta. Se todos as conhecessem e as usassem, o mundo seria definitivamente melhor. Os instintos, o coração e a inteligência podem desejar actos malvados, mas a etiqueta, ao preocupar-se com o que é agradável em sociedade, refrearia as pulsões dos instintos, os delíquios do coração e os sofismas arquitectados pela inteligência. É pena o ministro da Educação não ler este blogue. Tinha aqui o elemento central para um currículo que tornaria o nosso país numa coisa decente. Os ministros, porém, sofrem de enviesamento estrutural e nunca percebem quando estão perante uma ideia redentora. Há que ter paciência. Um dia, a etiqueta salvar-nos-á do seu enviesamento.

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