Quase me ia esquecendo de assinalar a efeméride. Hoje termina o Agosto de 2026. Nunca mais voltará. Não vale a pena fazer uma avaliação do mês que agora se fina. Não estou dado a exames de consciência, até porque isso implicaria ter consciência, coisa duvidosa, possuir, por outro lado, uma razão avaliadora, objecto ainda mais obscuro, e, por fim, ser dono de uma vontade. Ora, se há coisa que não faz parte da minha propriedade é a volição. Ter vontade é uma coisa cansativa. Há pessoas com vontade de ferro, mas eu desanimo só de pensar no peso do ferro associado ao da vontade. Essas pessoas, diz-se, são os construtores e os conquistadores do mundo. Muito bem. Parabéns. Construam os mundos que quiserem, conquistem os que vos der na real gana. Ainda chegarão a comendadores. E não chegam a viscondes nem a barões porque a nomenclatura caiu em desuso. O que é uma pena, pois um mundo cheio de barões e viscondes é muito mais interessante, a paisagem torna-se mais colorida. O único problema que descortino é bastante desagradável. Os cemitérios estão cheios de construtores, de conquistadores, de barões e de viscondes. Aliás, estão cheios de tudo o que é gente. Até de sem-abrigo. Há forte inclinação democrática na morte. Talvez me tenha perdido. Vinha escrever sobre outra coisa, mas depois a mente transviou-se, a consciência foi inconsciente e a vontade, pela sua ausência, não me trouxe ao lugar de onde queria partir. Adeus, Agosto. Fizeste o teu papel, espera-te o descanso eterno.
segunda-feira, 31 de agosto de 2026
domingo, 30 de agosto de 2026
Casamento
Ainda estou cansado do casamento de ontem. Como no jogo do Monopólio, por vezes, a vida traz-nos destas coisas. Ir a um casamento, fazer parte do décor, observar a felicidade alheia e todas aquelas coisas que este tipo de eventos traz consigo. A felicidade dos outros é uma coisa muito cansativa, e nisto não há qualquer inveja. Há muito – talvez desde sempre – adoptei uma máxima que não me tem defraudado: uma felicidade que se exibe e se proclama não é uma felicidade, mas apenas uma exibição e uma proclamação. A felicidade é secreta, avara em manifestações públicas, silenciosa perante terceiros. Mais do que tudo isso, ela é coisa incerta. O que nos faz felizes hoje, amanhã aborrece-nos. Fico sempre espantado, nestes eventos, com as proclamações de fidelidade. Ainda são mais estranhas do que as de felicidade. Não porque a fidelidade não seja um valor estimável, mas porque somos seres humanos e a volubilidade é mais persistente do que a fidelidade. Contudo, nada do que está escrito se deve levar a sério. São apenas impressões de alguém que já não vê bem, nem tem fé naquilo em que as pessoas gostam de ter fé. Preciso de descansar. Também o amor dos outros, quando projectado num ecrã que nem sequer é cinematográfico, é muito cansativo. Alguém me disse: Também estás velho. Foi a coisa mais sensata que ouvi durante todo o evento.
sexta-feira, 28 de agosto de 2026
Outro mundo
Numa gaveta encontrei diversos objectos, entre eles um manual de instruções de uma máquina de barbear, que irá directamente para o lixo, e um caderno com coisas escritas por alguém com uma letra completamente igual à minha. São diversos os assuntos que por lá estão. Todos desinteressantes. O que mais me chamou a atenção foi a frase Não-P é verdadeira se e somente se P é falsa. É uma afirmação da lógica proposicional clássica segundo a qual, se a proposição P é falsa, então a proposição não-P é verdadeira. Um exemplo: a proposição «O copo não é de vidro» é verdadeira se a proposição «O copo é de vidro» for falsa. Claro que nada disto é exaltante e não há coisa menos exaltante do que a tal lógica proposicional clássica. Um mundo em que as duas proposições fossem falsas ou verdadeiras ao mesmo tempo seria muito mais interessante, embora mais exigente para nele se viver. Um habitante desse mundo estaria, no entanto, preparado para lidar com a situação. Seria mais feliz do que nós? Não se sabe. Pelo menos, eu não sei. Contudo, teria copos muito mais desafiantes do que os nossos. Tendo copos mais desafiantes, podemos supor que teria também bebidas mais interessantes para neles colocar e beber. Mesmo que essas bebidas fossem e não fossem ao mesmo tempo bebidas. Vou também deitar o caderno para o lixo.
quinta-feira, 27 de agosto de 2026
A caminho da inocência
Libertei a secretária de três pilhas de livros. Contudo, agora preciso de libertar o sítio onde as pus. Talvez tenha chegado a altura de deixar de comprar livros. Já não tenho estantes para os arrumar. Comprando-as, tenho ainda de encontrar espaço para as colocar. Existe, mas implica uma negociação difícil. Também podia montar um negócio de venda de livros. O problema, porém, é que me falta a alma de comerciante. Um dia destes começo a dá-los, mas desconfio de que ninguém os quer. Seja como for, sinto-me revigorado por ter a secretária livre. Ainda não está imaculada, mas é para lá que quero que ela caminhe. Que vá da mácula à ausência de mancha. Não foi concebida sem pecado, a secretária, mas há-de ficar tão pura que nem eu terei coragem de a usar. O que poderia anunciar o fim destes textos escritos nela. Talvez fosse a decisão mais sensata, pois eles podem ter um efeito de conspurcação maior do que o dos livros, os quais pecavam por desarrumação, não pelo conteúdo. Os meus livros são púdicos, não contêm matérias dadas à impudência ou ao desaforo. Bem, talvez alguns romances de Henry Miller, umas obras do Marquês de Sade, mas esses livros moram em estantes longe da secretária, desta que caminha para a mais profunda virgindade e inocência.
quarta-feira, 26 de agosto de 2026
Aceleração
Hoje o dia não tem estado a contento de ninguém. Nem dos que amam o Verão, nem dos que amam o Inverno, nem dos que amam a Primavera, nem dos que amam o Outono. Contudo, numa viagem de 100 km feita esta manhã, passei pelas quatro estações, mas nenhuma se deteve o suficiente. Talvez seja a razão por que ninguém está contente com o dia. Podemos falar num fenómeno atmosférico que, por vezes, ocorre nesta época do ano. Eu prefiro, porém, pensar noutra coisa. O tempo está a acelerar e hoje acelerou de tal maneira que, num só dia, se viveu um ano inteiro. Por isso, recomendo que todos acrescentem mais um ano à idade que julgam ter. A dúvida que me surge, neste caso, centra-se numa hipótese plausível: se num dia foi possível viver um ano, haverá dias em que apenas se vivam alguns segundos? Serviria para equilibrar a aceleração do tempo. Contudo, qualquer coisa me diz que o tempo nunca abranda, apenas acelera. Só espero que ele não se despiste com tanta velocidade e arraste o nosso querido planeta para fora de órbita, o que seria desagradável para o sistema solar. Esperemos que a polícia da duração cumpra o seu papel.
terça-feira, 25 de agosto de 2026
Padre Cerqueira
Soube mesmo agora da morte, há dias, do padre Joaquim Cerqueira Gonçalves. Liderava, como agora se diz, no tempo em que cursei Filosofia, o departamento de Filosofia da Universidade de Lisboa, do qual era uma das figuras cimeiras. Das suas características, havia duas que me impressionaram: a inteligência e a ironia. Costumam andar ligadas e se falta uma é muito provável que falte a outra. A ele não faltava nenhuma, pelo contrário. Era claro que o padre Cerqueira, como era conhecido por todos, não entrava naqueles clubes referidos no post de ontem. Nem a inteligência nem a ironia lho permitiriam. Isto, para além, da condição de sacerdote franciscano, embora a condição sacerdotal não seja um seguro contra os devaneios da imaginação. Não vou contar quantos dos meus professores de então já morreram. A contabilidade sempre foi, para mim, um saber desagradável. Vou apanhar ar, antes de me avistar com um médico que me há-de prescrever um programa de fisioterapia.
segunda-feira, 24 de agosto de 2026
Pura diversão
Retomo a Conta-Corrente, de Vergílio Ferreira. O dia 10 de Maio de 1990. Na altura, desenrolava-se uma longa querela contra Martin Heidegger, na sequência do livro de Víctor Farías, Heidegger et le Nazisme. O escritor verberava aqueles que trucidavam Heidegger e, ao mesmo tempo, cultuavam Nietzsche. O que me interessa, porém, é outra coisa, a afirmação seguinte: Nietzsche é proclamado com Freud e Marx (dois judeus – se ele não o foi também…) a Santíssima Trindade do nosso século. E isto é uma pura descrição de facto. Naqueles dias, esta trindade alimentava o coração e a razão – talvez mais o coração do que a razão – de muitos que se interessavam pela Filosofia e saberes afins. As primeiras aulas que tive na faculdade foram de um freudiano, melhor, de um freudo-lacaniano, cujo discurso só Deus compreenderia. Não me faltaram marxistas, embora também não fossem assim tantos; um deles jurava a pés juntos que, em certas zonas da então União Soviética, já se tinha entrado em pleno comunismo, pequenos paraísos paroquiais a anunciar o grande paraíso, que parece ter faltado ao encontro. Também Nietzsche tinha os seus cultores entre os docentes, mas seria mais cultuado entre os alunos, talvez por uma questão hormonal. Quando olho para aqueles dias, e eles foram bem anteriores ao texto de Vergílio Ferreira, sempre me dá vontade de sorrir. No fundo, aqueles cultos não passavam de pequenas festas de aldeia, mas sem procissões e sem quermesses para vender rifas. Vejo isso agora, mas não o via na altura. O que me vale é que nem o Vergílio Ferreira, bem mais velho do que eu, percebeu a essência da coisa: uma pura diversão.
domingo, 23 de agosto de 2026
Chuva de domingo
Um estranho domingo de Agosto. Chove e troveja. Não se vêem pessoas na avenida, apenas um ou outro carro, sem pressa. Parece um começo de Outono, mas é apenas uma ilusão. A estiagem há-de voltar e penetrar mesmo por Outubro dentro. O verde das árvores, tocado pelas gotas de chuva, ganha uma vivacidade que a inclemência solar lhe rouba. As tílias estão exuberantes. Também os pinheiros e os cedros do bosque da escola estão mais vivos. É, apesar de tudo, um domingo de província, com a excitação de uma casa mortuária. Se não chovesse, os parques e esplanadas começariam a ficar cheios de vida. Assim, as pessoas ficaram em casa ou foram fazer compras. Por mim, sem compras para fazer, fico aqui a ver o negrume do céu, a queda da chuva, a cor do arvoredo. O vento tamborila nas persianas, enquanto conto os trovões, até que me canse. Um relâmpago… mas o som do trovão parece ter-se perdido. A trovoada está longe. Medito no sentido da vida, mas a vida é apenas vida. O sentido não lhe pertence, é apenas sentido de si mesmo, mercadoria que compramos por distracção. A chuva engrossou. É uma chuva oblíqua, como tudo no mundo. Sinto uma alegria secreta ao ouvir a chuva cair. Vou para a janela.
sábado, 22 de agosto de 2026
Cor e carnação
O meu teclado continuou a ecoar. Desconfiei de doença ruim, apesar de ser novo. Levei-o ao médico. O esculápio de serviço examinou-o, examinou-o. Depois, com ar sério, disse-me: tem de ser internado. Fiz uma cara de parvo, certamente, e balbuciei: mas preciso dele. Tem de ir para a marca. Demora cerca de uma semana. Mas… recomecei. Compra outro e, quando este chegar, são e salvo, devolve-o. Sendo assim, despedi-me do paciente e fui comprar outro. O mais barato que encontrar, pensei. Havia um por nove euros, nem hesitei. É nele que estou a escrever, sem letras a ecoar dentro das palavras. Já decidi. Quando vier o outro, fico com os dois, para o caso de uma nova recaída. Estou farto da saga dos teclados, mas a falta de assunto é tanta, que apanho o que vem à mão. Há pouco tinha um verso de Os Lusíadas para comentar, mas depois perdi-o. Prefiro um pouco de verrina. A 9 de Setembro de 1990, na sua Conta-Corrente, Vergílio Ferreira escreve sobre uma colectânea de crónicas, entretanto saída, de Vasco Pulido Valente. Diz o seguinte: Arrisco eu também a minha síntese do livro que obviamente não leio. Assim em farófia, paranóia, pesporrência, esperteza de vivaço que vive em chulice da estupidez da nossa parvónia – é bestial. Quanto a inteligência, saber, ter um mínimo de ideias sobre o que se passa hoje, por exemplo, em literatura – é ainda bestial, mas sem sufixo. Gloriosos tempos aqueles. Ainda não havia redes sociais, mas éramos, como hoje, seres humanos, o que não será um elogio. Por mim, falo de teclados, mas também a minha conta-corrente não passa destes lamentáveis textos, que nem servem para dizer mal de alguém. O que sempre lhes daria cor e carnação.
sexta-feira, 21 de agosto de 2026
Sonolência
Um dia ignóbil, pensei comigo. A adjectivação talvez seja forte, mas que dizer de um dia em que mal me sentava, a cabeça pendia e começava a dormitar. Esta inclinação para a sonolência ultrapassou as marcas. Ainda por cima, o teclado não ajuda. Continua apostado a ecoar, dentro das palavras, certas letras. Já segui todos os concelhos que me foram dados para resolver o problema. Continua na mesma. Vou optar por uma solução que não me foi aconselhada: comprar outro teclado, apesar deste ser novo. Talvez esteja na garantia. O que me impede de ir já fazer a troca é a sonolência que me atormenta. Vou dormitar.
quinta-feira, 20 de agosto de 2026
Espera
Uma manhã cheia de afazeres. Contactar o homem das persianas. Avariaram-se umas três durante as férias. Virá cá amanhã, depois do almoço. Espero. Marcar consulta de fisiatria. Será terça-feira, depois do lanche e antes do jantar. Espero. Encomendar o almoço para amanhã. Depois da uma. Espero. Foi uma actividade intensa, esta da manhã, com a única finalidade de ficar à espera. Fomo-nos habituando à instantaneidade, que sentimos como muito desconfortável qualquer tempo de espera. No mundo virtual, temos a ilusão, pois não passa disso mesmo, de que tudo é imediato. Queremos um livro, vamos ao site, encomendamos e pagamos. Rápido e eficiente. Uma ilusão. O livro levará tempo a chegar, a não ser que seja um ebook. A realidade, porém, não vive no mundo do instantâneo. Os seus rituais, marcados pela demora, exigem espera. Tive de esperar que o homem das persianas se dignasse atender o telemóvel, o que só aconteceu à segunda vez. Tive de esperar que a responsável pela clínica estivesse disponível para falar comigo. Mesmo para encomendar o almoço de amanhã, esperei que os clientes à minha frente fossem atendidos. Talvez a espera seja a substância de que é feita a vida, o que terá por corolário: viver é esperar. Assim, também eu espero Godot.
quarta-feira, 19 de agosto de 2026
Amuo
Cheguei hoje a casa, depois de tantas semanas fora, perdido por aí. Fui recebido com o acinte do calor, mas a vida tem destas coisas, não se pode ter tudo o que se quer, tendo-se, porém, muitas vezes, aquilo que não se quer. A adaptação não está a ser fácil, não por causa do calor, mas do teclado com que escrevo. Parece ciumento por ter sido trocado por outro este tempo todo. Quero escrever ter, e ele escreve teerr. Não lhe pedi que introduzisse nas palavras uma câmara de eco, mas ele não está interessado nos meus desejos. Não posso escrever muito, para não o irritar. Vou pensar como hei-de amansar a fera. Olho para a rua e descubro o bosque da escola em frente e as acácias da praceta. Mil tonalidades de verde fazem esquecer o amuo ecoante do teclado. Uma brisa ligeira chega até mim, mas o teclado continua a fazer eco.
terça-feira, 18 de agosto de 2026
A pequena sombra
Hoje, fui ver o mar. Um leve neblina descia sobre ele, mas não o suficiente para ocultar os muitos barcos que, ao longe, se entregavam aos seus afazeres. A praia tinha muita gente, mas, o mais importante, havia uma mesa disponível no bar. Sentado, submeti-me ao fascínio das águas. O silêncio sobrepôs-se à algazarra veraneante, e eu pude contemplar o mistério daquilo que os meus olhos observavam. Por vezes, conseguimos quebrar o encantamento do hábito e, perante o olhar, surge uma pequena sombra da verdade. Dançou perante mim por um tempo que não soube contar. De súbito, porém, ouviu-se o grasnar das gaivotas, a sombra ocultou-se, e eu levantei-me e voltei para casa.
segunda-feira, 17 de agosto de 2026
O verdadeiro termómetro
Hoje levantei-me cedo, fiz todas aquelas coisas que se devem fazer quando uma pessoa se levanta, tomei o pequeno-almoço e voltei para a cama. Há que reforçar o estatuto de doente. E um doente que não está na cama não é um doente. A certa altura, meço a febre e o termómetro respondeu: 36,3 ºC. Nem queria acreditar. Depois, olhei para o dispositivo e tranquilizei-me. Um termómetro digital? Que porcaria é essa? Um termómetro que saiba medir a febre está em vias de extinção, pensei. Outrora, existiam aqueles belíssimos objectos dignos do maior apreço científico. Um corpo de vidro oval ou triangular, terminado num bolbo, também ele de vidro, o reservatório onde se acumulava o mercúrio, esse metal extraordinário, líquido e prateado, e que haveria de subir ou descer em solidariedade com a temperatura do paciente. Depois, um tubo fino como um cabelo, pelo qual o mercúrio, vindo do bolbo, subia até não encontrar mais razões para continuar a escalar. Não menos importante, a escala graduada. Não há nada como uma escala para nos sentirmos, mesmo febris, em pleno campo científico. E o supremo encanto manifestava-se na hora em que um desses objectos se partia, o mercúrio saltava e deslizava em bolas que pareciam pequenas esferas de aço. Todas as coisas belas são perigosas, e o mercúrio, esse mensageiro dos estados febris, é tóxico. Foram eliminados e substituídos por estas coisas digitais, que nem uma escala têm para mostrar, apenas dígitos, como se tal fosse o suficiente para dar credibilidade às medições. Mas o que sinto mesmo falta é do mercúrio, do seu espírito conservador. Elevava-se, numa medição, aos 38,7 ºC e dali não descia, sem que um ritual de sacudidelas o obrigasse a retornar à casa da partida. Agora, vieram instar comigo para que tomasse o paracetamol, senão a febre vai voltar. Ri-me. Com um termómetro digital não há febre que chegue. Meu pobre Daniel Gabriel Farenheit, vê como não hesitaram em humilhar-te, substituindo o teu termómetro, o nosso termómetro, pela fancaria a que dão o mesmo nome.
domingo, 16 de agosto de 2026
Não é fácil
Recolho-me no quarto. Fui contaminado pela contaminadora geral da família, a neta mais nova. Na ânsia da adolescência, não há vírus com que não se dê. Mal encontra um, estabelece uma cordial relação com ele, trá-lo para casa e distribui-o sem olhar a quem. Tornou-me a calhar. Não faço ideia o tipo de vírus que me atingiu, mas sinto febre, embora o termómetro marque uns miseráveis 36,5ºC. Tomo Paracetamol e já entrei na fase do antibiótico. Não saí de casa, quase não saí do quarto e a cama foi o meu poiso em parte não pequena do dia. Até pensei que ia ler, mas dormitei vezes sem conta. É um exercício doloroso este de estar doente. Não apenas por aquilo que se sofre, uns incómodos na garganta e algumas dores no corpo, mas por aquilo que se imagina que se está a sofrer. Pertenço àquela raça de seres humanos do sexo masculino que, chegando aos 37ºC, se declaram absolutamente doentes, o mundo sombreia e fazem contas à vida. Enquanto as mulheres chegam aos 39ºC e é como se estivessem saudáveis, um homem que se preze declara-se em fase de gravidade extrema mal o termómetro passa, um décimo que seja, a mítica marca dos 37. Estou certo de que, em tempos antigos, não foram poucos os que chamaram o padre e receberam a extrema-unção. Não é fácil ser homem.
sábado, 15 de agosto de 2026
Palavras
Sim, disse ela / e aquele sim como que se afundou dentro de mim, sim, foi quase como se eu tivesse engolido a palavra e ela se me tivesse cravado no estômago. Nada disto me pertence. Foi Jon Fosse que o escreveu em Vaim. Então, o que faz isso neste local? Haverá muitas razões. Umas plausíveis, outras nem por isso. Talvez a mais óbvia seja uma razão de gosto. Gostei do excerto e decidi, em modo de citação, apropriar-me dele. Contudo, pensando bem, nem gosto assim tanto daquelas frases. Há outras de gosto mais, muitas outras, para ser claro. Gostei, porém, de três imagens que dançam naquele texto. Palavras a afundar-se dentro de mim, engolir palavras, palavras cravadas no estômago. Assim, posso pensar nas minhas palavras a afundar-se dentro de mim, como pequenos veleiros a afundarem-se no oceano. Se essas palavras se combinam num texto, então são como grandes transatlânticos a soçobrar num mar agitado e frio. A outras palavras, eu engulo-as, como se fossem pílulas para a insónia. Durante a noite, perante a resistência do sono em tornar-se presente, levanto-me, tomo uma mão-cheia de palavras e engulo-as. Depois, adormeço e acordo estremunhado. Outras palavras, as mais perigosas e as mais dignas de estima, são punhais. Cravam-se-me no estômago e dilaceram-me. São palavras trágicas e permitem-me fingir que a vida é uma tragédia, embora a vida seja apenas vida, e as palavras sejam apenas palavras. Já eu não sei o que sou, mas conheço um bom número de palavras que rasgariam o mundo ao meio, sem que alguém o pudesse cerzir. São palavras terríveis. Guardo-as dentro da caixa e ofereço-as a Pandora.
sexta-feira, 14 de agosto de 2026
Trauma
O tempo, por aqui, ainda não recuperou do trauma do eclipse. Mantém-se cinzento, sombrio, carregado de maus pensamentos e de dores que dificilmente esconde. Para os homens, os eclipses são actualmente apenas fenómenos astronómicos, um evento calculável pelas regras da física. Não o temem, fazendo dele aquilo que fizeram da sua vida: um grande espectáculo. Contudo, os elementos, entre eles o clima, são fiéis às antigas tradições e agem em conformidade com elas. O que haverá de mais perturbador do que essa experiência de o Sol, a fonte de vida, poder ser apagado, nem que seja por instantes, pela Lua? Quem sabe se esse apagamento momentâneo não é o sinal do que há-de vir? Enquanto os homens contabilizam o prazer do acontecimento, esses velhos elementos sofrem ainda com aquilo que aconteceu e que, de um momento para o outro, se pode tornar eterno. Está uma tarde crepuscular.
quinta-feira, 13 de agosto de 2026
Da história
Pertence a George Steiner a frase para que a “ideia de Europa” não se afunde nesse grande museu de sonhos passados a que chamamos história. Não me interessa, de momento, a ideia de Europa, caso exista tal ideia. Foi outra coisa que me chamou a atenção, a benevolência com que o autor trata a história: grande museu de sonhos passados. Sim, Steiner pretende ser irónico. Não com a história, mas com os sonhos. Entende-se não poucas vezes por sonho, no contexto da história, ideias benevolentes que nem o espaço nem o tempo admitiram. Contudo, se a história é um museu, e um museu onírico, o que se expõe nele são os pesadelos, mas aqueles que se vivem em plena vigília. São de tal maneira vivos, que quem passa por eles perde o sono e pede que o fim chegue depressa e, se possível, indolor.
quarta-feira, 12 de agosto de 2026
Amor e grafia
Comecemos uma história de amor de uma inusitada forma: tachibana no / kagoto gamashiki / awase kana. Isto não é nenhuma língua inventada por este narrador desocupado, mas a transcrição em Rōmaji (no alfabeto latino) de um haiku japonês, de Yosa Buson. A tradução em português, de Joaquim M. Palma, é a seguinte: a túnica de linho / traz com ela / a história de um velho amor. A tradução do poema é acompanhada por uma nota do poeta: Alguém me enviou uma túnica com um recado no seu interior escrito por uma mulher que amei há muitos anos. Um ocidental interessar-se-á menos pelo registo de uma emoção do que pelo conteúdo do recado. O que escreveu aquela mulher que foi amada há muitos anos pelo poeta? A verdade do acontecimento parece fora do haiku, ela está oculta. O fundamental é desocultá-la. Ora, o poema apenas a insinua, e essa insinuação ainda é uma forma de a esconder. Talvez o poeta tenha sentido isso mesmo, quando decidiu deixar uma nota junto ao poema. A túnica traz a história de um velho amor, e o recado escrito pela mulher, que diz ele? Pedi a um Modelo de Linguagem que transcrevesse o texto para caracteres japoneses. O que recebi de volta foi isto: 橘のかごとがましき袷かな.Não sei se está correcto ou não. Sei apenas que é uma caligrafia belíssima. Quem quer saber da verdade, se pode escrever assim?
terça-feira, 11 de agosto de 2026
Preguiça
Uma pilha de livros acumula-se em cima de uma mesa que, por estes dias, faz de secretária. A explicação para o acumular é simples: preguiça. Esta parece ser um vício terrível, um pecado capital. Um pecado é capital se for a cabeça (de caput, em latim) de um corpo composto por outros pecados, uma infinidade deles, tantos como os órgãos de um corpo, ou mesmo tantos quanto as células que o compõem. Temos assim, no campo da pecaminosidade, apenas sete cabeças, o que significa que o poderoso exército que arrasta o pobre homem de queda em queda é composto por apenas sete militares, intrépidos, sempre actuantes. Observo aquele que agora me acomete, impedindo-me de arrumar os livros que amontoei, e não consigo perceber como é que a preguiça é a cabeça de coisa alguma, quanto mais de um corpo pecaminoso. A verdade é que, originalmente, esse pecado não era a preguiça, mas a acédia, uma indiferença espiritual, uma melancolia metafísica. Isso sim, um verdadeiro pecado em forma de cabeça. Talvez isso fosse difícil de explicar ao corpo dos fiéis e, lentamente, para facilitar a compreensão, o pecado foi ele mesmo caindo de estatuto, até chegar a essa coisa mole e viscosa que é a preguiça. Tenho também uma explicação mais social e política. Com o desenvolvimento do capitalismo na era moderna, o trabalho, que sempre tivera má imprensa, passou a ser uma virtude que os indivíduos deviam ostentar. O problema eram os preguiçosos. Para os pôr na ordem, eliminou-se a acédia, assunto de monges do deserto e de intelectuais de mosteiro, e decretou-se a preguiça como coisa que podia levar a alma a arder por toda a eternidade. Quando sofro de preguiça, a única coisa que me apetece é ser preguiçoso, abrir a boca e bocejar, sentar-me sem a menor intenção de mexer uma palha. Não me sinto tentado a nada, nem a cometer pecados veniais. Talvez fosse boa ideia repor as coisas no devido lugar, até porque um preguiçoso não é agente da sua preguiça. Ele sofre-a, não a produz. Chega por hoje. A preguiça impede-me de escrever. Acho que vou sair e beber uma cerveja num bar de praia.