quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Espera

Uma manhã cheia de afazeres. Contactar o homem das persianas. Avariaram-se umas três durante as férias. Virá cá amanhã, depois do almoço. Espero. Marcar consulta de fisiatria. Será terça-feira, depois do lanche e antes do jantar. Espero. Encomendar o almoço para amanhã. Depois da uma. Espero. Foi uma actividade intensa, esta da manhã, com a única finalidade de ficar à espera. Fomo-nos habituando à instantaneidade, que sentimos como muito desconfortável qualquer tempo de espera. No mundo virtual, temos a ilusão, pois não passa disso mesmo, de que tudo é imediato. Queremos um livro, vamos ao site, encomendamos e pagamos. Rápido e eficiente. Uma ilusão. O livro levará tempo a chegar, a não ser que seja um ebook. A realidade, porém, não vive no mundo do instantâneo. Os seus rituais, marcados pela demora, exigem espera. Tive de esperar que o homem das persianas se dignasse atender o telemóvel, o que só aconteceu à segunda vez. Tive de esperar que a responsável pela clínica estivesse disponível para falar comigo. Mesmo para encomendar o almoço de amanhã, esperei que os clientes à minha frente fossem atendidos. Talvez a espera seja a substância de que é feita a vida, o que terá por corolário: viver é esperar. Assim, também eu espero Godot.

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