Libertei a secretária de três pilhas de livros. Contudo, agora preciso de libertar o sítio onde as pus. Talvez tenha chegado a altura de deixar de comprar livros. Já não tenho estantes para os arrumar. Comprando-as, tenho ainda de encontrar espaço para as colocar. Existe, mas implica uma negociação difícil. Também podia montar um negócio de venda de livros. O problema, porém, é que me falta a alma de comerciante. Um dia destes começo a dá-los, mas desconfio de que ninguém os quer. Seja como for, sinto-me revigorado por ter a secretária livre. Ainda não está imaculada, mas é para lá que quero que ela caminhe. Que vá da mácula à ausência de mancha. Não foi concebida sem pecado, a secretária, mas há-de ficar tão pura que nem eu terei coragem de a usar. O que poderia anunciar o fim destes textos escritos nela. Talvez fosse a decisão mais sensata, pois eles podem ter um efeito de conspurcação maior do que o dos livros, os quais pecavam por desarrumação, não pelo conteúdo. Os meus livros são púdicos, não contêm matérias dadas à impudência ou ao desaforo. Bem, talvez alguns romances de Henry Miller, umas obras do Marquês de Sade, mas esses livros moram em estantes longe da secretária, desta que caminha para a mais profunda virgindade e inocência.
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