segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Pura diversão

Retomo a Conta-Corrente, de Vergílio Ferreira. O dia 10 de Maio de 1990. Na altura, desenrolava-se uma longa querela contra Martin Heidegger, na sequência do livro de Víctor Farías, Heidegger et le Nazisme. O escritor verberava aqueles que trucidavam Heidegger e, ao mesmo tempo, cultuavam Nietzsche. O que me interessa, porém, é outra coisa, a afirmação seguinte: Nietzsche é proclamado com Freud e Marx (dois judeus – se ele não o foi também…) a Santíssima Trindade do nosso século. E isto é uma pura descrição de facto. Naqueles dias, esta trindade alimentava o coração e a razão – talvez mais o coração do que a razão – de muitos que se interessavam pela Filosofia e saberes afins. As primeiras aulas que tive na faculdade foram de um freudiano, melhor, de um freudo-lacaniano, cujo discurso só Deus compreenderia. Não me faltaram marxistas, embora também não fossem assim tantos; um deles jurava a pés juntos que, em certas zonas da então União Soviética, já se tinha entrado em pleno comunismo, pequenos paraísos paroquiais a anunciar o grande paraíso, que parece ter faltado ao encontro. Também Nietzsche tinha os seus cultores entre os docentes, mas seria mais cultuado entre os alunos, talvez por uma questão hormonal. Quando olho para aqueles dias, e eles foram bem anteriores ao texto de Vergílio Ferreira, sempre me dá vontade de sorrir. No fundo, aqueles cultos não passavam de pequenas festas de aldeia, mas sem procissões e sem quermesses para vender rifas. Vejo isso agora, mas não o via na altura. O que me vale é que nem o Vergílio Ferreira, bem mais velho do que eu, percebeu a essência da coisa: uma pura diversão.

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