Um estranho domingo de Agosto. Chove e troveja. Não se vêem pessoas na avenida, apenas um ou outro carro, sem pressa. Parece um começo de Outono, mas é apenas uma ilusão. A estiagem há-de voltar e penetrar mesmo por Outubro dentro. O verde das árvores, tocado pelas gotas de chuva, ganha uma vivacidade que a inclemência solar lhe rouba. As tílias estão exuberantes. Também os pinheiros e os cedros do bosque da escola estão mais vivos. É, apesar de tudo, um domingo de província, com a excitação de uma casa mortuária. Se não chovesse, os parques e esplanadas começariam a ficar cheios de vida. Assim, as pessoas ficaram em casa ou foram fazer compras. Por mim, sem compras para fazer, fico aqui a ver o negrume do céu, a queda da chuva, a cor do arvoredo. O vento tamborila nas persianas, enquanto conto os trovões, até que me canse. Um relâmpago… mas o som do trovão parece ter-se perdido. A trovoada está longe. Medito no sentido da vida, mas a vida é apenas vida. O sentido não lhe pertence, é apenas sentido de si mesmo, mercadoria que compramos por distracção. A chuva engrossou. É uma chuva oblíqua, como tudo no mundo. Sinto uma alegria secreta ao ouvir a chuva cair. Vou para a janela.
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