sábado, 22 de agosto de 2026

Cor e carnação

O meu teclado continuou a ecoar. Desconfiei de doença ruim, apesar de ser novo. Levei-o ao médico. O esculápio de serviço examinou-o, examinou-o. Depois, com ar sério, disse-me: tem de ser internado. Fiz uma cara de parvo, certamente, e balbuciei: mas preciso dele. Tem de ir para a marca. Demora cerca de uma semana. Mas… recomecei. Compra outro e, quando este chegar, são e salvo, devolve-o. Sendo assim, despedi-me do paciente e fui comprar outro. O mais barato que encontrar, pensei. Havia um por nove euros, nem hesitei. É nele que estou a escrever, sem letras a ecoar dentro das palavras. Já decidi. Quando vier o outro, fico com os dois, para o caso de uma nova recaída. Estou farto da saga dos teclados, mas a falta de assunto é tanta, que apanho o que vem à mão. Há pouco tinha um verso de Os Lusíadas para comentar, mas depois perdi-o. Prefiro um pouco de verrina. A 9 de Setembro de 1990, na sua Conta-Corrente, Vergílio Ferreira escreve sobre uma colectânea de crónicas, entretanto saída, de Vasco Pulido Valente. Diz o seguinte: Arrisco eu também a minha síntese do livro que obviamente não leio. Assim em farófia, paranóia, pesporrência, esperteza de vivaço que vive em chulice da estupidez da nossa parvónia – é bestial. Quanto a inteligência, saber, ter um mínimo de ideias sobre o que se passa hoje, por exemplo, em literatura – é ainda bestial, mas sem sufixo. Gloriosos tempos aqueles. Ainda não havia redes sociais, mas éramos, como hoje, seres humanos, o que não será um elogio. Por mim, falo de teclados, mas também a minha conta-corrente não passa destes lamentáveis textos, que nem servem para dizer mal de alguém. O que sempre lhes daria cor e carnação.

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