segunda-feira, 18 de abril de 2022

Retorno

Retornei a casa, anunciação de retorno à realidade. Por aqui, sol e vento cruzam-se num tumulto embaraçado que faz rodopiar e brilhar, ao mesmo tempo, as folhas do arvoredo. Em mim, alguma coisa murmura: o arvoredo não tem folhas, tem árvores. São estas que têm folhas, mas não é condição suficiente ter folhas para se ser árvore. Os arbustos têm folhas. Também as têm as alface e couves e ninguém se lembraria de dizer que são árvores. Ao escrever alface sinto um ricto de desgosto na testa. Não gosto, de facto, dessas plantas herbáceas do género Lactuca. Talvez porque a nossa alface tenha um gosto árabe – al-khass – muito diferente da espanhola, lechuga, da francesa, laitue, da italiana, lattuga, ou mesmo da inglesa, lettuce. Todas estas alfaces têm um sabor latino e um aroma clássico, enquanto as nossas, na verdade, não passam de alfaces. Já os alemães usam para alface um termo tétrico, vi-o num tradutor automático, Kopfsalat, que com bonomia se pode traduzir por salada do chefe, mas alguém mais dado à literalidade pode ser tentado em traduzir como salada de cabeça. Um nojo. Certamente que não seria sobre alfaces que queria escrever, mas a coisa propiciou-se. Poderia escrever, por exemplo, sobre a incapacidade dos médicos de cumprirem o horário das consultas. Deve fazer parte do juramento de Hipócrates e, portanto, um dos elementos da arte médica. Hoje, ao acompanhar alguém, tive direito a três quartos de hora de espera para além da hora marcada. Contudo, não vou escrever sobre isso, pois pode ser apenas uma experiência minha e eu esteja a fazer uma generalização precipitada. A rua está tristonha, ainda presa ao tempo quaresmal. Ouve-se um cão ladrar, mas tudo parece incerto, como se o dia hesitasse entre estancar a marcha ou precipitar-se para a noite.

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