Consta que começou a Primavera, mas o Inverno insiste em continuar vivo. Não se pode recorrer à eutanásia, perguntei. A pobre estação contorce-se de dores, geme e grita como uma perdida. Alguém me disse – não vi quem: há dois problemas para eutanasiar o Inverno. Um de ordem religiosa e outro de ordem jurídica. A eutanásia é um pecado, por um lado; pelo outro, não foi legalizada neste país. Não quis entrar em controvérsia sobre religião ou política com quem não conheço, mas não me coibi de responder, embora sem ver a face do interlocutor, caso existisse algum. Respondi impante: Do ponto de vista religioso, não há qualquer problema. Uma estação do ano é destituída de alma, logo é permissível matá-la. Quanto ao aspecto jurídico, o problema ainda é mais fácil de resolver. Além de não ter alma, o Inverno também não tem corpo. Se for eutanasiado, não haverá qualquer problema com o corpo de delito. O que me espanta em toda esta história é a estação que já devia ter morrido continuar por aí, ainda por cima sem alma e sem corpo. Chegámos ao ponto fundamental desta comunicação, um ponto onde a falta de seriedade do assunto aterra num problema de ontologia fundamental. Tínhamos por um lado os seres corporais, tínhamos por outro os seres espirituais, puras almas, tínhamos, ainda, os seres compostos, aqueles que têm ao mesmo tempo corpo e alma. E isto completava o conjunto de seres possíveis. Ora, acabei de abrir uma brecha na muralha ontológica. Além desses seres que todos conhecemos, temos uma outra classe, a dos seres que não têm corpo e não têm alma, mas existem. A prova é eles manifestam-se. E se se manifestam, logo existem. É o caso do Inverno. Nunca ninguém lhe viu corpo, nunca religião alguma descobriu nele alma, mas mesmo assim ele existe, e, no caso actual, persiste, recusando-se a entrar para o túmulo onde deveria ser sepultado para toda a eternidade.
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