sábado, 19 de setembro de 2026

Enlouquecer

O smartwatch que uso indica-me que, lá fora, estão 35 graus. Quase acredito, mas, nestas coisas, há que ser previdente. Decido consultar duas aplicações que tenho no telemóvel. Afinal, o relógio estava a induzir-me em erro. Neste momento, na rua, estão apenas 34. São quase seis da tarde. Se saísse de casa, enlouquecia. E não enlouqueceria lentamente, como acontece a muitos. Seria um acontecimento rápido. O calor derretia-me os neurónios, estes ficavam uma papa nojenta e eu, já sem matéria para fazer sinapses, arrastava-me pelas ruas da cidade como um louco, talvez a admoestar os concidadãos pelo mal, talvez a fazer previsões sobre apocalipses. Gosto bastante deste tipo de loucura. Em tempos, havia por aqui um louco, ou talvez nem tanto, que tinha a particularidade de saber os resultados de todos os jogos de todos os campeonatos nacionais de futebol. Qual foi o resultado do Belenenses – F. C. do Porto, na época de 1933-1934? E ele, envolto na nuvem da sua loucura, lá dava o resultado certo desse jogo. Nunca falhava, pois havia quem se certificasse da veracidade do desfecho desses prélios… Ah, o uso de prélios é uma reminiscência dos tempos em que me interessava pelo futebol e havia jornalistas que empregavam essa palavra. Eu nunca a usei. Acho que hoje é a primeira vez. Seja como for, não vou para a rua por temer enlouquecer dessa maneira. Então, qual foi o resultado do Atlético – Barreirense na época de 1952-1953? E eu lá debitava o resultado. Não, não me vejo neste tipo de loucura agarrada no passado. Por isso, não ponho os pés na rua enquanto a temperatura não descer dos 28 graus. Se tivesse, porém, a certeza de que era um louco futurista, com previsões sobre as desgraças que esperam a humanidade ao virar da esquina, não hesitava e punha-me de imediato fora de casa. Expulsava-me.

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