Há dias, fui trocar Os Anéis de Saturno, de W. G. Sebald, recebido como presente. Já existia um exemplar na biblioteca cá de casa. A escolha foram dois romances que têm em comum serem criados por mulheres e de pertencerem a literaturas não ocidentais. A escolha recaiu em A Vegetariana, da sul-coreana Han Kang, e As Noites Frias da Infância, da turca Tezer Özlü. A primeira reflexão que, então me ocorreu, quando tomei consciência da nacionalidade das autoras, foi sobre o poder que o romance moderno, uma criação ocidental, tem para penetrar em muitas outras culturas. Isso mostra que esta espécie literária responde a uma necessidade universal da humanidade. Essa necessidade não é apenas de narrar histórias, mas de dar uma atenção especial à agência autónoma dos indivíduos, de os singularizar. Podemo-nos aventurar na especulação e afirmar que, apesar de muitas culturas serem ferozmente comunitárias e, de certo modo, inimigas da afirmação da subjectividade individual, os seres humanos trazem em si uma inclinação para se afirmarem na sua diferença em relação aos outros e ao todo. O romance moderno, nascido com o Quixote, de Miguel Cervantes, é uma resposta artística a essa inclinação para a valorização da subjectividade. Não poucas culturas tentam sufocar, com êxito maior ou menor, a afirmação de um eu autónomo. Contudo, a existência de uma literatura romanesca nas mais diversas áreas culturais manifesta que a ânsia de afirmação da subjectividade não constitui uma peculiaridade ocidental, mas antes um desejo universal, cuja consciência os ocidentais, por influência do cristianismo, terão sido os primeiros a explicitar.
sexta-feira, 31 de julho de 2026
quinta-feira, 30 de julho de 2026
Mapas e territórios
Tenho, neste dias de Julho, saltitado de romance em romance, mas devo ter encontrado um poiso seguro. Por poiso seguro quero dizer um romance que me apetece ler até ao fim. Trata-se de O Mapa e o Território, de Michel Houellebecq. Foi este que venceu a corrida para alcançar a meta da minha atenção. O título é, já por si, um elemento que mereceu o meu favor. Aparentemente, teríamos uma relação entre a representação, o mapa, e a coisa representada, o território. Contudo, a ideia principal, ainda por confirmar, estará num outro tipo de relação. O mapa, o melhor será dizer os mapas. Estes são as produções humanas e estas estão fadadas a tornarem-se representações de territórios que já não existem. Esta ideia remete de imediato para uma peculiaridade da vida contemporânea: tudo o que se faz traz em si a marca da sua obsolescência. Não são apenas os dispositivos que usamos, mas também a arte que praticamos, as políticas que são levadas a efeito, as crenças que abraçamos. Todos eles são mapas para uma realidade que já deixou de existir. Esta ideia, todavia, já estava presente em Hegel. Não se referia a todas as actividades humanas, mas àquela que estaria no cume dessas actividades, a filosofia. A frase, uma das mais célebres frases do filósofo alemão, diz: A ave de Minerva só levanta o voo ao romper do crepúsculo. A ave de Minerva é a filosofia. Esta só conhece aquilo que foi. É um saber crepuscular. Dito de outra maneira, a filosofia é um mapa de um território que já não existe. A ideia mais forte, tanto do romance de Houellebecq como do pensamento hegeliano, reside num outro lugar. Não temos qualquer mapa nem para o presente nem para o futuro. A vida não é uma representação, embora estejamos condenados a construir mapas para apaziguar em nós o medo que ela nos infunde.
quarta-feira, 29 de julho de 2026
O sonho dos guerreiros
Encontramos em diversas sociedades pré-modernas quatro grandes orientações de vida humana. A mais elevada é a que conduz à busca da verdade. A segunda está orientada para a glória. A terceira centra-se na riqueza. Por fim, a mais baixa tem por objectivo os prazeres sensoriais. É ainda esta divisão que de alguma forma se reflecte na hedonismo de Stuart Mill, ao dividir os prazeres em superiores e inferiores, sendo estes os que homens e animais não racionais partilham. A glória é o objectivo perseguido pelo guerreiro, que a atinge através da coragem. Foi ela, durante muito tempo, o motor da história. Nos diários de viagem do grande poeta japonês Matsuo Bashô (1644-1694), encontramos a revelação da inutilidade dessa busca. Numa entrada desses diários, o poeta escreve no início: A glória de três gerações de Fujiwara desvaneceu-se como o sonho de uma noite. Os restos da entrada principal da mansão estão a um li de distância do conjunto das ruínas. A residência de Hidehira converteu-se num matagal e só resta em pé o monte Kinkei. A glória militar não passa de um devaneio onírico. A sua grandeza transforma-se num matagal. Bashô cita o poeta Du Fu: países são arrasados / os rios e as montanhas permanecem… / entre as ruínas do castelo / a primavera renasce / e reverdecem as ervas. Tanto a prosa de Bashô como a poesia de Du Fu contrapõem a efemeridade da glória à permanência da natureza. É provável que ambos os poetas contrapusessem a vida que busca a sabedoria e a vida orientada para a glória. O mundo, porém, transformou-se, a glória militar soçobrou perante a busca da riqueza. A queda da glória não é um facto consumado. Durante o século XX, a glória guerreira foi mobilizada para levar a cabo grandes e inúteis devastações. Contudo, o que estava em causa não era a velha glória guerreira, mas interesses e pulsões mais baixas. Assistimos neste momento, com o primeiro quartel do XXI consumado, a um retorno ao espírito guerreiro e a uma cultura da glória. É uma farsa, mas esta não deixa de ser real. Um desejo de guerra e uma de busca da glória começam a desenhar-se nas pulsões de muitos adolescentes e jovens do sexo masculino. Fariam bem em meditar o haiku que Bashô escreveu perante a ruína da glória de três gerações de Fujiwara: ervas do estio / eis tudo o que resta / do sonho dos guerreiros.
terça-feira, 28 de julho de 2026
Parte relaxada
Uma revolta lombar, ouvi falar em lombalgia, decidiu levantar-se contra mim. Sem piedade. Dos colírios usados, consta um relaxante muscular. Resultado: imagino que os músculos se relaxem, pois todo o resto está relaxado. Em primeiro lugar o cérebro. A velocidade das sinapses reduziu-se assustadoramente, de tal maneira que estão proibidas de entrar na auto-estrada, mesmo que seja para andar só na faixa da direita. Ligar duas ideias é um esforço desmedido, e se escrevo o que estou a escrever é porque os efeitos do medicamento começam a moderar-se, depois de ter passado algumas horas numa sesta, onde não tive direito a sonhos, devaneios ou rêveries. A minha vontade é levar os responsáveis a tribunal, mas temo que o processo se arraste tanto tempo que, no momento do julgamento, nem lembre do que aconteceu. Uma parte do corpo que pede relaxantes só pode ser, apesar das aparências em contrário, uma parte relaxada.
segunda-feira, 27 de julho de 2026
Um elástico
Tenho de me despachar, penso ao sentar-me para escrever. Lisboa espera-me e não me apetece levar a parafernália que utilizo para a escrita destes textos. Só escrevo em computador. Um portátil, mas ligado a um monitor de 24 polegadas. Manipulo o tamanho do texto conforme me apetece, mas é desconfortável para levar em viagem. Ia para dizer uma mentira. Ia descrever o terror que me assola se o texto sai com algum erro, mas não sinto qualquer terror, apenas um leve incómodo se descubro alguma coisa que não devia estar lá. Após a escrita, faço uma revisão, mas demasiado apressada e sem a distância suficiente para não ler o que não está lá. Por vezes, as frases saem desagradáveis, constato-o, se leio o texto passado algum tempo. Paciência. Também não sou todos os dias uma pessoa agradável. Será que serei em algum? Isso não vem ao caso. Estou a arrastar o texto e não tarda estão-me a perguntar se demoro muito. Claro que não, não demoro muito, respondo sempre, mas vou demorando, esticando o tempo, como se ele fosse um elástico. Como um elástico, ele solta-se das mãos e atinge-me na cara. São coisas que acontecem. Tenho de me despachar, mesmo. O tempo já esticou o que tinha de esticar.
domingo, 26 de julho de 2026
As coisas belas
Está em exibição o filme Leibniz – Crónica de uma Pintura Perdida, de Edgar Reitz. Do realizador, apenas vi Heimat, mas, as três séries (na verdade um único filme), e os dois filmes realizados posteriormente, mas anteriores, no tempo da narrativa, às séries, contabilizam dezenas de horas. Ainda não vi o filme e não sei se tenho espaço temporal para o ver nestes dias. As reacções dos espectadores – aquelas que surgem como comentário num jornal – são absolutamente extremadas. Uma pessegada ou de fugir a sete pés, por um lado, e belíssimo filme ou um filme tão denso e intenso. Esta dissensão entre os espectadores não é uma questão de gosto. Ela nasce da equivocidade da palavra cinema. Esta designa tanto o entretenimento industrial, mais ou menos conseguido, como uma das artes contemporâneas, com a respectiva complexidade e exigência de uma educação quase formal. Os espectadores disponíveis para os dois ramos do cinema não são, na maioria dos casos, os mesmos. Uns procuram a insustentável leveza do ser, enquanto outros anseiam por qualquer coisa que sustente e confirme o mundo em que vivem. Quando isso não acontece, a decepção é grande. Não compreendem, nem compreenderão, a frase platónica: as coisas belas são difíceis. Insustentavelmente difíceis, acrescento eu.
Actualização: Afinal, o filme já não está em exibição. Sou um anacrónico. Além, disso, vejo mal ou não vejo. Terá chegado aos ecrãs nacionais em finais de Maio, mas já se evaporou.
sábado, 25 de julho de 2026
Efeitos do tempo
Li há pouco um poema de Georg Trakl, Primavera da Alma I, uma composição com cinco quadras. Depois de ler e de reler, fiquei a pensar no mundo que suportava aquele poema, pois todos os poemas se enraízam num mundo. Ora, esse mundo acabou. Não voltará. Também não será possível escrever o que está na quarta quadra: Renascem o pão e o vinho, / É mágico o som do órgão; / E envolve a cruz da Paixão / Um misterioso brilho. Tudo isso se tornou desconhecido, pois o enraizamento dessas palavras foi desfeito pelo passar do tempo. Sim, podemos culpar o progresso técnico, mas isso será um desvario de uma mente que se perdeu no caminho. O progresso técnico é apenas um agente do tempo, ao qual não faltam funcionários. Executa ordens, não as concebe, não as dá. Ora, pensamos que somos nós, seres humanos, que transformamos o mundo. Isso, porém, é uma ilusão. É o tempo. É habitado por uma inquietação tal que não apenas está sempre projectado para o amanhã, como sente necessidade de desfazer o que estava feito. Por isso, não podemos falar como falavam os nossos bisavós, nem avós, tão pouco como os nossos pais. E se alguém espera que filhos e netos falem como ele fala, então vive numa perfeita ilusão. O tempo torna estranho o idioma que parece o mesmo e é designado da mesma maneira. Não vivemos nem no mundo dos nossos pais nem dos nosso filhos, por isso falamos línguas diferentes de ambos. Não damos por isso, porque transportamos sempre connosco um tradutor automático. Não é infalível. Daí haver, não poucas vezes, entre pais e filhos, tal incompreensão que parecem estrangeiros uns aos outros. Também os tradutores automáticos sofrem os efeitos do tempo.
sexta-feira, 24 de julho de 2026
O dia de hoje
No dia de hoje, mas de 1833, o duque da Terceira, ao comando das tropas liberais, fez a sua entrada triunfal em Lisboa, depois de derrotar as tropas miguelistas, na Cova da Piedade. Também a 24 de Julho, mas agora de 1921, nasceu o tenor italiano Giuseppe Di Stefano. Aliás, recebi a informação logo de manhã, quando no carro ia escutando a Antena 2. Contudo, há que pôr as coisas no seu lugar. O primeiro Di Stefano de que tomei conhecimento chamava-se Alfredo e tinha um acento no e, o que fazia dele Di Stéfano. Era argentino. Pertence à minha memória futebolística, como um dos jogadores míticos do grande Real Madrid, que antes dele chegar da Argentina não era assim tão grande. Claro que não me lembro dele jogar, mas do nome. Ele, diga-se, não devia fazer parte deste texto, pois nasceu a 4 de Julho e não a 24, mas a quase homonímia com o tenor italiano trouxe-o até aqui, e não vejo razão para o expulsar. Podemos discutir quem terá sido maior, se o italiano na Ópera, se o argentino no futebol. Vivemos num mundo dominado pelo totalitarismo da avaliação, onde existem métricas para tudo. Para tudo, mas não para o essencial, como é saber qual dos dois foi o maior no seu campo. Seja como for, tendo em conta o dia, a minha preferência vai para o Duque da Terceira, embora este tenha nascido a 18 de Março. Parece ser uma opção política, coisa que me está interdita. Contudo, um acontecimento político com quase 200 anos não é um acontecimento político, mas um fenómeno natural. Por exemplo, a Revolução Francesa, na sua época e durante muito tempo, foi considerada um fenómeno político, e ainda há quem assim pense. São pessoas anacrónicas, submersas pelas paixões do passado. A Revolução Francesa, vista daqui, ano de 2026, não se distingue da passagem de um cometa, da erupção de um vulcão, de um eclipse do Sol ou de um terramoto seguido de tsunami. Tudo fenómenos naturais. Também o 24 de Julho se tornou um fenómeno natural, um pequeno vendaval, em memória do qual se deu o nome a uma avenida de Lisboa. Devia procurar uma ópera com o Di Stefano e a Maria Callas, a Lucia di Lammermoor, por exemplo. Pensando melhor, vou procurar no YouTube o jogo da final da Taça dos Campeões Europeus de 1961/62, em que o Benfica de Eusébio ganhou 5-3 ao Real Madrid de Di Stéfano. Uma escavação arqueológica.
quinta-feira, 23 de julho de 2026
Um desacerto
Acabei de passar os olhos pela imprensa diária. Os olhos, pobres deles, bocejaram e disseram-me: não me podes oferecer novidades realmente novas? Contemplei-os e respondi-lhe: não há nada de novo sob o Sol. Eles encolheram os ombros e retrucaram: então por que nos submetes a esta tortura diária de ver as novidades que nunca são novas. Porque, respondi-lhes, não suportariam novidades efectivamente novas. Nem eles, nem eu, mas esta confissão foi omitida. Devo manter algum prestígio perante os olhos, mesmo que sejam os meus. Tenho uma tarefa para realizar com urgência, mas não tenho paciência para o que é urgente, nem vontade de realizar o que devo realizar. A vida é um desacerto. Quando tenho paciência para o urgente, não existem urgências. Quando tenho vontade de realizar qualquer coisa, não há que fazer. Não sei se já sonharam semiacordados. Depois de almoço, acontece-me não poucas vezes. O sonho repete-se, não sem prazer, confesso. Sonho com uma certa mulher, não como ela é agora, mas como seria neste momento se tivesse dois terços da idade que tem, sendo quem é, mantendo o mesmo nome, a mesma identidade, o mesmo tom de voz, o mesmo olhar. Ao escrever dois terços constato que o sonho terá uma natureza matemática. Sim, é um sonho matemático, no qual os meus olhos se confrontam com uma novidade que nunca viram, mas que desejam ver e, de certo modo, vêem, através do expediente de um número fraccionário. O que me atormenta, porém, é não saber se aquilo que eles vêem – sim, um corpo desejável e, por que não dizê-lo, desejado – é visto quando eles estão acordados ou quanto estão adormecidos. Estes estados intermédios mergulham-me numa penumbra da qual não sei como sair, logo eu que sou um adepto de ideias claras e distintas. Não sei, por isso, a quem devo repreender. Se aos meus olhos, se aos meus sonhos semiacordados. A mim não, por certo, pois eu sou um mero paciente: sofro os desmandos. Ora dos meus sentidos, ora dos meus estados oníricos. Não tenho mão neles. Caso tivesse, punha-os na ordem. Vou ler o jornal ou, talvez, sonhar semiacordado, mesmo que os dois terços sejam eliminados e o objecto do sonho se apresente com a idade que tem, na sua mais pura unidade.
quarta-feira, 22 de julho de 2026
O declínio de um resistente
Um almoço de sardinhas acompanhado, claro, por um tinto. O resultado foi uma sesta, mas uma sesta a sério, deitado na cama, a ressonar, imagino. Não é que nos outros dias o sono, depois de almoço, não me tente, e eu não me deixe cair na tentação. Mas não chego ao que cheguei hoje. Sento-me, de preferência à frente do computador, e vou adormecendo e acordando. Isto recordou-me a longínqua infância e o pesadelo das tarde de Verão. Lá por casa, entendia-se que dormir a sesta era uma coisa muito saudável, o que tornou a sesta um imperativo. Podia ser, de facto, um imperativo, mas era, para mim, uma tortura. Não dormia, e o tempo passava tão devagar que cada minuto parecia-me uma hora. Depois, o imperativo foi-se tornando em facultativo, o que trouxe rapidamente a abolição dessa escravatura ao que é saudável, à malfadada sesta. Nisto, vejo-o agora, havia em mim a resistência portuguesa à espanholização dos costumes. Sestas só para lá da fronteira. Em Elvas devem ser proibidas, em Badajoz, obrigatórias. Hoje, sinto-me como um velho resistente à ditadura castelhana da sesta, militante que, sem ceder nos princípios inimigos da sesta, cede na prática à nefasta influência dos hábitos daqueles que vivem do outro lado da fronteira. E enquanto adormeço depois do almoço, vou sussurrando: Abaixo a sesta! Abaixo Castela!
terça-feira, 21 de julho de 2026
A palavra perdida
Alguns dos últimos textos têm sido excessivamente grandes. Preocupa-me esta tendência para ser prolixo. A preocupação deve-se à crença – em mim, inabalável – de que quanto menos se tem para dizer, mais se escreve. É o que se passa comigo. O meu ideal secreto – mas que hoje partilho aqui – é ir reduzindo os textos cada vez mais. Isso coloca-me um problema. Se quanto menos se tem para dizer, mais se escreve, será verdade que quanto menos se escreve, mais se tem para dizer? Aceitemos esta possibilidade como uma verdade. Qual será o limiar textual mínimo admissível para comunicar grandes coisas? O silêncio é o principal candidato à modalidade de expressão com o máximo conteúdo. Aquele que nada diz é o que mais diz. Esta queda no paradoxo não me parece, contudo, muito decente. É mesmo uma questão de decência e não de lógica evitar o paradoxo. Podemos encurtar os textos até que subsista uma única frase, plena de conteúdo. No entanto – esta é a minha proposta para hoje, para amanhã encontrarei outra – a comunicação com o máximo de conteúdo deverá ser apenas uma palavra, uma palavra plena. Ora, por que razão se escreve e se fala tanto? Porque essa palavra se perdeu, ninguém sabe dela. Por isso, escreve-se e fala-se sem parar, como se se estivesse num ritual mágico que, a certa altura, nos faria descobrir a palavra perdida, aquela que sendo proferida, nos indicava o caminho para estarmos quietos e calados. Também eu não a encontrei, por isso vou escrevendo coisas mais ou menos idiotas, na expectativa de que ela – a palavra perdida – me caia no colo, eu a peça em casamento, ela aceite e sejamos felizes para sempre, na quietude do silêncio de um amor eterno. Ite missa est, diria então por não saber estar calado.
segunda-feira, 20 de julho de 2026
Novela romântica
Hoje, para aproveitar o autor estar distraído a comentar a final de ontem com os amigos, cometo uma infracção à conduta de narrador, a qual, diga-se, me foi imposta. Vou infringir a proibição terminante de falar de política. A política, através do Estado, lida positivamente com dois tipos de acções. Em primeiro lugar, as que são proibidas, como matar ou roubar. Em segundo lugar, as que são obrigatórias, como conduzir pela direita ou pagar os impostos. Estes tipos de acções são obrigatórios. Melhor: num caso, é obrigatório não as realizar; noutro, é obrigatório realizá-las. E as acções livres, a política lida com elas? Sim, de duas maneiras. Uma, para as punir. Eu tenho a liberdade de matar outra pessoa ou de fugir aos impostos. Porém, isso terá consequências, mais ou menos penosas. A segunda maneira de a política – isto é, o Estado – lidar com as acções livres é ignorá-las. O Estado não quer saber das acções que não estão nas categorias de proibidas e de obrigatórias. São acções sem consequências políticas. Contudo, o Estado relacionasse com estas acções de uma maneira a que poderíamos chamar geográfica. Traça as fronteiras que delimitam esse país que são as acções que o Estado ignora. Há Estados que pretendem ignorar muitas das nossas acções. Outros, porém, são mais curiosos sobre o que fazemos e diminuem o território desse país. Há duas condições de possibilidade da felicidade humana que dependem da política. A primeira é que ela impeça que os outros exerçam sobre nós qualquer tipo de coacção. A segunda é que a ignorância do Estado seja a mais ampla possível. Dito isto, podemos considerar que o Estado é bom por aquilo que sabe, impedindo-nos de violar os direitos uns dos outros, e também é bom pela sua ignorância. O saber e a ignorância do Estado não se confundem com a nossa felicidade, mas tornam-na possível. O facto de sermos felizes ou infelizes, desde que o Estado cumpra o seu papel e ignore aquilo que deve ignorar, não é um problema dele. É nosso, do nosso talento e da nossa fortuna. O principal equívoco em que alguém pode cair é pensar que o Estado tem o papel de o tornar feliz. É para isso impotente, embora não o seja para tornar qualquer um infeliz. Esta é uma crónica política de inclinação sentimental. A felicidade foi introduzida para ludibriar o autor. Se me perguntar quem me deu autorização para falar de política, perguntar-lhe-ei o que está ele a dizer. Apenas narrei uma história sobre a felicidade e infelicidade, quase uma novela romântica, a que só faltou o suicídio de um jovem tomado por males de amor.
domingo, 19 de julho de 2026
Divagações de domingo
As cores das estações. João Barrento traduziu assim Georg Trakl: O tactear dos verdes degraus do Verão e, no verso seguinte Caiu suavemente no silêncio castanho do Outono. Pena que o poeta não escrevesse, no mesmo poema, sobre o Inverno e a Primavera. Que cores lhe atribuiria? Como alguém que pertence à Mitteleuropa, Trakl associa o Verão e o Verde, coisa que eu nunca faria. Sou, porém, um europeu do Sul e Trakl do Centro, embora a minha alma pertença mais a essa Mitteleuropa do que a este Sul onde o meu corpo nasceu. Sofro de um dualismo ontológico. Mais radical do que o de Descartes, que se limitava a separar corpo e alma. Tenho uma alma nascida na Mitteleuropa e um corpo nascido nessa Europa do Sul, que é já uma África em potência e, não poucas vezes, em acto. Voltemos ao verso O tactear dos verdes degraus do Verão. Trakl escreveu: Tasten über die grünen Stufen des Sommers. A tradução introduziu um elemento prosódico, uma aliteração, que não estava presente no verso original. A repetição da consoante ‘v’ em verdes e Verão dá uma musicalidade que não está presente no original. A do original de Trakl é dada por uma assonância, com a repetição de “ü” em “über” e em “grünen”. Será que estamos perante o mesmo verso. Não estamos, apesar da tradução ser praticamente literal. A poesia não depende apenas do sentido presente nos versos, mas também, e fundamentalmente, do seu ritmo musical. João Barrento, o tradutor, acaba por escrever, em cada poema traduzido, um novo poema, completamente inédito. Perdi-me. Queria eu falar das estações do ano e das cores que se lhe associam e comecei a divagar sobre a prosódia e a tradução, eu que não sou tradutor e tenho o ritmo de uma estátua de pedra cravada no solo. Melhora fora que falasse das quatro estações. Dessas tenho um saber de experiência feito.
sábado, 18 de julho de 2026
Old passions die hard
Como tenho estado com pouca predisposição para o que quer que seja, estive a fazer uma contabilidade, embora não tivesse chegado a quaisquer números, dos jogos de futebol que tenho visto desde o início deste Mundial. Sei que ultrapassaram largamente os que vi em qualquer dos mundiais a que prestei atenção, o primeiro dos quais foi o de 1966, com um até agora inultrapassado, por Portugal, terceiro lugar. O que vale é que, neste momento, faltam apenas dois jogos, e esta pequena paixão tardia acabará por morrer ao virar da folha do calendário. Por falar em paixões tardias, é Céfalo, no início da República, de Platão, que recorda a palavra de Sófocles, o grande tragediógrafo grego. Alguém terá pergunta ao autor de Antígona o seguinte: Como te sentes, ó Sófocles, em relação aos prazeres do amor? Ainda és capaz de te unir a uma mulher? Ao que ele respondeu: Cala-te, homem! Com a maior das alegrias escapei disso, como quem foge de um amo louco e selvagem. Ora, segundo o texto de Platão, Céfalo estaria a chegar à idade em que poderia subscrever as palavras de Sófocles. O texto da República, porém, não esclarece um ponto essencial. Que idade teria Céfalo quando cita Sófocles – Céfalo afirma que estava presente no momento da afirmação – e qual seria a do poeta trágico quando a proferiu. As coisas importantes escapam não poucas vezes ao filósofos. Ora, para preencher a lacuna, consultei o inevitável ChatGPT. Não tinha uma informação precisa, mas depois de alguns cálculos, mais ou menos verosímeis, adiantou estimativas que devemos aceitar. Sófocles teria cerca de 85 anos. Não sabemos, porém, quantos anos antes se libertou ele desse amo louco e selvagem. Já Céfalo, aquando do diálogo que constitui a República, teria 75 anos. A idade, se assentirmos no que dizem gregos tão ilustres, traz a morte das grandes paixões, aquelas que unem um homem a uma mulher, mas será que ela dissolve do mesmo modo as pequenas, as que não são selvagens nem loucas, como ver jogos de futebol? Pode acontecer, porém, outra coisa. É que tanto Céfalo na resposta que dá a Sócrates, como Sófocles na resposta que dá a um interlocutor que Platão não regista, mas que uma tradição afirma ser outro grande trágico, Eurípides, podem estar a ficcionar. Há um título de um álbum, de 1976, do grupo alemão de rock Triumvirat que dá uma resposta a esta desconfiança: Old Loves Die Hard. E a questão não é apenas que os velhos amores custem a morrer. O título do álbum joga com uma expressão inglesa que lhe dá um acréscimo de sentido old habits die hard. E as paixões são hábitos, velhos hábitos difíceis de morrer. Deixemos esta conversa de velhos e preparemo-nos para ver a Final da Taça do Canal da Mancha entre as infelizes selecções de Inglaterra e de França. Hoje, perguntaram-me que selecção apoiava. Respondi: Que ganhe o melhor, e se não for possível, então que ganhe o pior.
sexta-feira, 17 de julho de 2026
Antecipação
Não tarda e troco o calor daqui pelo da capital. Gostaria que fosse uma troca perdulária, mas as últimas experiências em Lisboa não têm sido simpáticas. Calor e mais calor. A Península é uma África que não se reconhece como tal, mas que tem no horizonte tornar-se um deserto. Não é que eu saiba alguma coisa dessas transformações geofísicas, nem que queira vir a saber. É apenas o sentimento de que as coisas estão a mudar mais rapidamente do que deviam. Ora, a velocidade raramente é benévola. Decisões muito rápidas dão desastres tão grandes que se pensa como não foram antecipados. A resposta é simples: a culpa é da velocidade. Ora, o clima também anda veloz. Um dia acordamos, o Alentejo e até o meu pobre Ribatejo são um deserto, e Lisboa a capital de uma país, ele mesmo, desértico. Nas ideias, nas pessoas e em lugares habitáveis. É a antecipação dessa Lisboa que me preparo para visitar. Por obrigação. E o que tem de ser tem muita força. Já há muito que não me deixava tentar pela sabedoria popular, logo eu que trago comigo um imenso reportório de ditados, máximas e lugares-comuns.
quinta-feira, 16 de julho de 2026
Uma vocação
Peguei no estojo dos meus óculos e constatei que ele apresenta já sinais de degradação. Não é apenas a mola que mantinha as duas partes unidas que deixou de funcionar. Também o material que o cobre, onde se encontra imprensa a marca, está desgastado. Contudo, olho para ele e ainda o reconheço como o estojo dos meus óculos. Isto, talvez por estar entregue a uma vida de ócio, recordou-me uma eventual oposição entre o pensamento grego e o chinês. Aristóteles, perante o estojo, faria a pergunta: o que é esta coisa? Se dermos crédito ao Livro das Mutações (I Ching), a preocupação não é as coisas mas as situações. A pergunta seria: em que transformação esta situação se encontra? Em Aristóteles pergunta-se pela essência da coisa. A essência de um estojo seria aquilo que faz com que um estojo seja um estojo e não um gato ou uma cadeira. Seria imutável. Para o pensamento chinês, se o consigo interpretar, o estojo é apenas uma situação da matéria que está em transformação. Talvez a ciência moderna esteja muito mais próxima do I Ching do que da Física e da Metafísica de Aristóteles. Para ela, as coisas não têm uma essência, encontram-se em contínua transformação. Procura a legislação que determina essas transformações. Contudo, o desenvolvimento da ciência moderna, desde o século XVII até aos nossos dias, nunca conseguiu aniquilar por completo a nostalgia das essências aristotélicas ou das Ideias platónicas. Elas são uma sombra que paira sobre o mundo ocidental. Se eu pensar sobre a essência do estojo dos meus óculos, não me preocuparei muito com ela. Mas se pensar na essência que me faz ser aquilo que sou, sinto uma vertigem resultante do choque de poder ser apenas uma situação que está em transformação, sem que sob ela exista uma essência permanente. Serei um ser impermanente, mas que traz em si uma vocação para a permanência.
quarta-feira, 15 de julho de 2026
Rituais
Encontram-se nos mais inesperados lugares sinais de democratização do gosto. Segundo Ruth Benedict, O Crisântemo e a Espada, um dos pequenos prazeres do corpo, no Japão, é o banho quente. Para o mais miserável produtor de arroz e para a mais humilde criada como para o aristocrata rico, o banho diário em água extremamente quente faz parte da rotina de fim de tarde. Aqueles a que tudo separa são unidos por este ritual. Este nada tem que ver com a higiene corporal, pois esta deve ser realizada antes da entrada no banho quente. Uma dúvida surge ao leitor: será que o rito democratizante existe porque ainda todos se reconhecem como pertencentes a uma comum humanidade, ou existirá para que todos sejam obrigados, apesar das resistências que possam ter e por estranho que socialmente lhes pareça, a reconhecer que fazem parte ainda de uma só espécie, que entre eles há uma fraternidade que o tempo, a fortuna e os talentos parecem apostados em dissolver. Talvez tudo isto esteja errado e o banho não seja um ritual de inclusão, mas de exclusão. Seria um sinal de identificação de todos os japoneses, mas excluiria todos os outros, esses não japoneses que desconhecem a arte do banho e o prazer do corpo que lhe está associado. Será essa uma das características de qualquer ritual, incluir e identificar os que o praticam, por estranhos que sejam, e excluir aqueles que o não praticam, quão semelhantes possam ser. E nisto – o ritual – seria uma imagem da vida, que não será outra coisa do que um jogo de inclusões e de exclusões. O pior que pode acontecer a um jogador é ser excluído do jogo.
terça-feira, 14 de julho de 2026
Frivolidades
São sete da tarde. Acabei de chegar da praia. Uma festa. Não se imagine, porém, que foi a comemoração da tomada da Bastilha. Aos franceses o que é dos franceses. Talvez fosse a companhia de uma das netas que me levou a ficar até a estas horas na praia. Diga-se, para se ser verdadeiro, que estava um dia de praia excepcional, isto pelo parâmetros daqueles que gostam de praia. Quase fui ao mar, mas tinha relógio – parece que é à prova de água, mas não acredito – e telemóvel no bolso dos calções. Podia tê-los guardado, mas esqueci-me e, depois, não me apeteceu voltar ao lugar onde as coisas aguardavam o nosso regresso. Preparo-me, agora, para ver o França – Espanha, veremos se o 14 de Juillet é funesto para os franceses ou, pelo contrário, inspirador. Por mim, sou rigorosamente apartidário. Que ganhe o melhor ou, então, o pior. Um dia de frivolidades, mas estas são a minha especialidade. Tenho de ir tomar banho antes que a bola comece a rolar.
segunda-feira, 13 de julho de 2026
Tempo cruel
O mundo é de uma crueldade atroz. Não, refaço a proposição. O tempo é de uma crueldade atroz. Peguei num romance português de 1964. Nas badanas, estavam excertos de críticas de duas obras anteriores do romancista. Os autores pertenciam à nata da crítica portuguesa dos anos cinquenta e sessenta do século passado. Segundo essas notas seleccionadas com esmero pelo editor, estar-se-ia perante um extraordinário escritor. Em 1964, não tinha idade por me interessar nem pela crítica literária, nem pelos seus objectos. Sei apenas que nunca o nome do autor chegou alguma vez aos meus ouvidos. Foi há pouco tempo que o descobri num alfarrabista, espólio de uma falência editorial. Ninguém sabe quem ele é. O tempo desfez o génio literário e arrastou com ele todos os críticos e a crítica daqueles tempos. Se não houvesse tempo, o génio do autor não se dissolveria e a perspicácia dos críticos permaneceria contra ventos e marés, mas o tempo existe e não é dado à piedade.
domingo, 12 de julho de 2026
Sem consciência
A certa altura da entrevista concedida ao Público, László Krasznahorkai diz: Não me movo por qualquer tipo de consciência ou intenção deliberada quando me sento para escrever. Trago a citação porque é essa a experiência deste narrador, mesmo quando os seus textos, noutros lugares que não este, deveriam ter a seriedade de um plano, o apoio de um questionário e a tranquilidade de uma tese. Sento-me e começo a escrever o que o acaso traz. Isto é uma imensa vantagem, pois o acaso está em qualquer lugar ou em qualquer tempo. Uma coisa observada no mundo, um pensamento ou imagem que atravessa a consciência, a vontade de contar uma mentira, o desejo acendido pelo corpo de uma mulher – não devia escrever isto aqui, sempre há que preservar a compostura e a imagem de um velho monge que medita as bem-aventuranças. Por vezes, os assuntos cruzam-se sem nexo aparente, mas quando se escreve borbulham preocupações, cruzam-se, negam-se. Só isso. Bem, há mais qualquer coisa. Há muitos anos, há décadas, descobri uma trivialidade: tudo tem que ver com tudo. Um assunto pode conectar-se com um outro que, dir-se-á, nada tem que ver com ele. Isso, porém, é uma ilusão. Os assuntos residem todos na nossa consciência, mesmo aqueles mais transcendentes, e nela se tocam, se amparam e crescem até que sejam projectados para o mundo pela escrita, pela fala, por sinais de fumo, por notas musicais ou mesmo pelo encolher dos ombros. Saem da consciência sem que a consciência tenha deliberado sobre a sua saída. Não há coisa mais inconsciente em mim do que estuporada da minha consciência.