Alguns dos últimos textos têm sido excessivamente grandes. Preocupa-me esta tendência para ser prolixo. A preocupação deve-se à crença – em mim, inabalável – de que quanto menos se tem para dizer, mais se escreve. É o que se passa comigo. O meu ideal secreto – mas que hoje partilho aqui – é ir reduzindo os textos cada vez mais. Isso coloca-me um problema. Se quanto menos se tem para dizer, mais se escreve, será verdade que quanto menos se escreve, mais se tem para dizer? Aceitemos esta possibilidade como uma verdade. Qual será o limiar textual mínimo admissível para comunicar grandes coisas? O silêncio é o principal candidato à modalidade de expressão com o máximo conteúdo. Aquele que nada diz é o que mais diz. Esta queda no paradoxo não me parece, contudo, muito decente. É mesmo uma questão de decência e não de lógica evitar o paradoxo. Podemos encurtar os textos até que subsista uma única frase, plena de conteúdo. No entanto – esta é a minha proposta para hoje, para amanhã encontrarei outra – a comunicação com o máximo de conteúdo deverá ser apenas uma palavra, uma palavra plena. Ora, por que razão se escreve e se fala tanto? Porque essa palavra se perdeu, ninguém sabe dela. Por isso, escreve-se e fala-se sem parar, como se se estivesse num ritual mágico que, a certa altura, nos faria descobrir a palavra perdida, aquela que sendo proferida, nos indicava o caminho para estarmos quietos e calados. Também eu não a encontrei, por isso vou escrevendo coisas mais ou menos idiotas, na expectativa de que ela – a palavra perdida – me caia no colo, eu a peça em casamento, ela aceite e sejamos felizes para sempre, na quietude do silêncio de um amor eterno. Ite missa est, diria então por não saber estar calado.
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