sábado, 25 de julho de 2026

Efeitos do tempo

Li há pouco um poema de Georg Trakl, Primavera da Alma I, uma composição com cinco quadras. Depois de ler e de reler, fiquei a pensar no mundo que suportava aquele poema, pois todos os poemas se enraízam num mundo. Ora, esse mundo acabou. Não voltará. Também não será possível escrever o que está na quarta quadra: Renascem o pão e o vinho, / É mágico o som do órgão; / E envolve a cruz da Paixão / Um misterioso brilho. Tudo isso se tornou desconhecido, pois o enraizamento dessas palavras foi desfeito pelo passar do tempo. Sim, podemos culpar o progresso técnico, mas isso será um desvario de uma mente que se perdeu no caminho. O progresso técnico é apenas um agente do tempo, ao qual não faltam funcionários. Executa ordens, não as concebe, não as dá. Ora, pensamos que somos nós, seres humanos, que transformamos o mundo. Isso, porém, é uma ilusão. É o tempo. É habitado por uma inquietação tal que não apenas está sempre projectado para o amanhã, como sente necessidade de desfazer o que estava feito. Por isso, não podemos falar como falavam os nossos bisavós, nem avós, tão pouco como os nossos pais. E se alguém espera que filhos e netos falem como ele fala, então vive numa perfeita ilusão. O tempo torna estranho o idioma que parece o mesmo e é designado da mesma maneira. Não vivemos nem no mundo dos nossos pais nem dos nosso filhos, por isso falamos línguas diferentes de ambos. Não damos por isso, porque transportamos sempre connosco um tradutor automático. Não é infalível. Daí haver, não poucas vezes, entre pais e filhos, tal incompreensão que parecem estrangeiros uns aos outros. Também os tradutores automáticos sofrem os efeitos do tempo.

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