segunda-feira, 20 de julho de 2026

Novela romântica

Hoje, para aproveitar o autor estar distraído a comentar a final de ontem com os amigos, cometo uma infracção à conduta de narrador, a qual, diga-se, me foi imposta. Vou infringir a proibição terminante de falar de política. A política, através do Estado, lida positivamente com dois tipos de acções. Em primeiro lugar, as que são proibidas, como matar ou roubar. Em segundo lugar, as que são obrigatórias, como conduzir pela direita ou pagar os impostos.  Estes tipos de acções são obrigatórios. Melhor: num caso, é obrigatório não as realizar; noutro, é obrigatório realizá-las. E as acções livres, a política lida com elas? Sim, de duas maneiras. Uma, para as punir. Eu tenho a liberdade de matar outra pessoa ou de fugir aos impostos. Porém, isso terá  consequências, mais ou menos penosas. A segunda maneira de a política – isto é, o Estado – lidar com as acções livres é ignorá-las. O Estado não quer saber das acções que não estão nas categorias de proibidas e de obrigatórias. São acções sem consequências políticas. Contudo, o Estado relacionasse com estas acções de uma maneira a que poderíamos chamar geográfica. Traça as fronteiras que delimitam esse país que são as acções que o Estado ignora. Há Estados que pretendem ignorar muitas das nossas acções. Outros, porém, são mais curiosos sobre o que fazemos e diminuem o território desse país. Há duas condições de possibilidade da felicidade humana que dependem da política. A primeira é que ela impeça que os outros exerçam sobre nós qualquer tipo de coacção. A segunda é que a ignorância do Estado seja a mais ampla possível. Dito isto, podemos considerar que o Estado é bom por aquilo que sabe, impedindo-nos de violar os direitos uns dos outros, e também é bom pela sua ignorância. O saber e a ignorância do Estado não se confundem com a nossa felicidade, mas tornam-na possível. O facto de sermos felizes ou infelizes, desde que o Estado cumpra o seu papel e ignore aquilo que deve ignorar, não é um problema dele. É nosso, do nosso talento e da nossa fortuna. O principal equívoco em que alguém pode cair é pensar que o Estado tem o papel de o tornar feliz. É para isso impotente, embora não o seja para tornar qualquer um infeliz. Esta é uma crónica política de inclinação sentimental. A felicidade foi introduzida para ludibriar o autor. Se me perguntar quem me deu autorização para falar de política, perguntar-lhe-ei o que está ele a dizer. Apenas narrei uma história sobre a felicidade e infelicidade, quase uma novela romântica, a que só faltou o suicídio de um jovem tomado por males de amor.

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