Tenho, neste dias de Julho, saltitado de romance em romance, mas devo ter encontrado um poiso seguro. Por poiso seguro quero dizer um romance que me apetece ler até ao fim. Trata-se de O Mapa e o Território, de Michel Houellebecq. Foi este que venceu a corrida para alcançar a meta da minha atenção. O título é, já por si, um elemento que mereceu o meu favor. Aparentemente, teríamos uma relação entre a representação, o mapa, e a coisa representada, o território. Contudo, a ideia principal, ainda por confirmar, estará num outro tipo de relação. O mapa, o melhor será dizer os mapas. Estes são as produções humanas e estas estão fadadas a tornarem-se representações de territórios que já não existem. Esta ideia remete de imediato para uma peculiaridade da vida contemporânea: tudo o que se faz traz em si a marca da sua obsolescência. Não são apenas os dispositivos que usamos, mas também a arte que praticamos, as políticas que são levadas a efeito, as crenças que abraçamos. Todos eles são mapas para uma realidade que já deixou de existir. Esta ideia, todavia, já estava presente em Hegel. Não se referia a todas as actividades humanas, mas àquela que estaria no cume dessas actividades, a filosofia. A frase, uma das mais célebres frases do filósofo alemão, diz: A ave de Minerva só levanta o voo ao romper do crepúsculo. A ave de Minerva é a filosofia. Esta só conhece aquilo que foi. É um saber crepuscular. Dito de outra maneira, a filosofia é um mapa de um território que já não existe. A ideia mais forte, tanto do romance de Houellebecq como do pensamento hegeliano, reside num outro lugar. Não temos qualquer mapa nem para o presente nem para o futuro. A vida não é uma representação, embora estejamos condenados a construir mapas para apaziguar em nós o medo que ela nos infunde.
Sem comentários:
Enviar um comentário
Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.