segunda-feira, 27 de julho de 2026

Um elástico

Tenho de me despachar, penso ao sentar-me para escrever. Lisboa espera-me e não me apetece levar a parafernália que utilizo para a escrita destes textos. Só escrevo em computador. Um portátil, mas ligado a um monitor de 24 polegadas. Manipulo o tamanho do texto conforme me apetece, mas é desconfortável para levar em viagem. Ia para dizer uma mentira. Ia descrever o terror que me assola se o texto sai com algum erro, mas não sinto qualquer terror, apenas um leve incómodo se descubro alguma coisa que não devia estar lá. Após a escrita, faço uma revisão, mas demasiado apressada e sem a distância suficiente para não ler o que não está lá. Por vezes, as frases saem desagradáveis, constato-o, se leio o texto passado algum tempo. Paciência. Também não sou todos os dias uma pessoa agradável. Será que serei em algum? Isso não vem ao caso. Estou a arrastar o texto e não tarda estão-me a perguntar se demoro muito. Claro que não, não demoro muito, respondo sempre, mas vou demorando, esticando o tempo, como se ele fosse um elástico. Como um elástico, ele solta-se das mãos e atinge-me na cara. São coisas que acontecem. Tenho de me despachar, mesmo. O tempo já esticou o que tinha de esticar.

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