sexta-feira, 31 de julho de 2026

Afirmação de Si

Há dias, fui trocar Os Anéis de Saturno, de W. G. Sebald, recebido como presente. Já existia um exemplar na biblioteca cá de casa. A escolha foram dois romances que têm em comum serem criados por mulheres e de pertencerem a literaturas não ocidentais. A escolha recaiu em A Vegetariana, da sul-coreana Han Kang, e As Noites Frias da Infância, da turca Tezer Özlü. A primeira reflexão que, então me ocorreu, quando tomei consciência da nacionalidade das autoras, foi sobre o poder que o romance moderno, uma criação ocidental, tem para penetrar em muitas outras culturas. Isso mostra que esta espécie literária responde a uma necessidade universal da humanidade. Essa necessidade não é apenas de narrar histórias, mas de dar uma atenção especial à agência autónoma dos indivíduos, de os singularizar. Podemo-nos aventurar na especulação e afirmar que, apesar de muitas culturas serem ferozmente comunitárias e, de certo modo, inimigas da afirmação da subjectividade individual, os seres humanos trazem em si uma inclinação para se afirmarem na sua diferença em relação aos outros e ao todo. O romance moderno, nascido com o Quixote, de Miguel Cervantes, é uma resposta artística a essa inclinação para a valorização da subjectividade. Não poucas culturas tentam sufocar, com êxito maior ou menor, a afirmação de um eu autónomo. Contudo, a existência de uma literatura romanesca nas mais diversas áreas culturais manifesta que a ânsia de afirmação da subjectividade não constitui uma peculiaridade ocidental, mas antes um desejo universal, cuja consciência os ocidentais, por influência do cristianismo, terão sido os primeiros a explicitar.

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