domingo, 19 de julho de 2026

Divagações de domingo

As cores das estações. João Barrento traduziu assim Georg Trakl: O tactear dos verdes degraus do Verão e, no verso seguinte Caiu suavemente no silêncio castanho do Outono. Pena que o poeta não escrevesse, no mesmo poema, sobre o Inverno e a Primavera. Que cores lhe atribuiria? Como alguém que pertence à Mitteleuropa, Trakl associa o Verão e o Verde, coisa que eu nunca faria. Sou, porém, um europeu do Sul e Trakl do Centro, embora a minha alma pertença mais a essa Mitteleuropa do que a este Sul onde o meu corpo nasceu. Sofro de um dualismo ontológico. Mais radical do que o de Descartes, que se limitava a separar corpo e alma. Tenho uma alma nascida na Mitteleuropa e um corpo nascido nessa Europa do Sul, que é já uma África em potência e, não poucas vezes, em acto. Voltemos ao verso O tactear dos verdes degraus do Verão. Trakl escreveu: Tasten über die grünen Stufen des Sommers. A tradução introduziu um elemento prosódico, uma aliteração, que não estava presente no verso original. A repetição da consoante ‘v’ em verdes e Verão dá uma musicalidade que não está presente no original. A do original de Trakl é dada por uma assonância, com a repetição de “ü” em “über” e em “grünen”. Será que estamos perante o mesmo verso. Não estamos, apesar da tradução ser praticamente literal. A poesia não depende apenas do sentido presente nos versos, mas também, e fundamentalmente, do seu ritmo musical. João Barrento, o tradutor, acaba por escrever, em cada poema traduzido, um novo poema, completamente inédito. Perdi-me. Queria eu falar das estações do ano e das cores que se lhe associam e comecei a divagar sobre a prosódia e a tradução, eu que não sou tradutor e tenho o ritmo de uma estátua de pedra cravada no solo. Melhora fora que falasse das quatro estações. Dessas tenho um saber de experiência feito.

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