quarta-feira, 22 de julho de 2026

O declínio de um resistente

Um almoço de sardinhas acompanhado, claro, por um tinto. O resultado foi uma sesta, mas uma sesta a sério, deitado na cama, a ressonar, imagino. Não é que nos outros dias o sono, depois de almoço, não me tente, e eu não me deixe cair na tentação. Mas não chego ao que cheguei hoje. Sento-me, de preferência à frente do computador, e vou adormecendo e acordando. Isto recordou-me a longínqua infância e o pesadelo das tarde de Verão. Lá por casa, entendia-se que dormir a sesta era uma coisa muito saudável, o que tornou a sesta um imperativo. Podia ser, de facto, um imperativo, mas era, para mim, uma tortura. Não dormia, e o tempo passava tão devagar que cada minuto parecia-me uma hora. Depois, o imperativo foi-se tornando em facultativo, o que trouxe rapidamente a abolição dessa escravatura ao que é saudável, à malfadada sesta. Nisto, vejo-o agora, havia em mim a resistência portuguesa à espanholização dos costumes. Sestas só para lá da fronteira. Em Elvas devem ser proibidas, em Badajoz, obrigatórias. Hoje, sinto-me como um velho resistente à ditadura castelhana da sesta, militante que, sem ceder nos princípios inimigos da sesta, cede na prática à nefasta influência dos hábitos daqueles que vivem do outro lado da fronteira. E enquanto adormeço depois do almoço, vou sussurrando: Abaixo a sesta! Abaixo  Castela!

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