Encontramos em diversas sociedades pré-modernas quatro grandes orientações de vida humana. A mais elevada é a que conduz à busca da verdade. A segunda está orientada para a glória. A terceira centra-se na riqueza. Por fim, a mais baixa tem por objectivo os prazeres sensoriais. É ainda esta divisão que de alguma forma se reflecte na hedonismo de Stuart Mill, ao dividir os prazeres em superiores e inferiores, sendo estes os que homens e animais não racionais partilham. A glória é o objectivo perseguido pelo guerreiro, que a atinge através da coragem. Foi ela, durante muito tempo, o motor da história. Nos diários de viagem do grande poeta japonês Matsuo Bashô (1644-1694), encontramos a revelação da inutilidade dessa busca. Numa entrada desses diários, o poeta escreve no início: A glória de três gerações de Fujiwara desvaneceu-se como o sonho de uma noite. Os restos da entrada principal da mansão estão a um li de distância do conjunto das ruínas. A residência de Hidehira converteu-se num matagal e só resta em pé o monte Kinkei. A glória militar não passa de um devaneio onírico. A sua grandeza transforma-se num matagal. Bashô cita o poeta Du Fu: países são arrasados / os rios e as montanhas permanecem… / entre as ruínas do castelo / a primavera renasce / e reverdecem as ervas. Tanto a prosa de Bashô como a poesia de Du Fu contrapõem a efemeridade da glória à permanência da natureza. É provável que ambos os poetas contrapusessem a vida que busca a sabedoria e a vida orientada para a glória. O mundo, porém, transformou-se, a glória militar soçobrou perante a busca da riqueza. A queda da glória não é um facto consumado. Durante o século XX, a glória guerreira foi mobilizada para levar a cabo grandes e inúteis devastações. Contudo, o que estava em causa não era a velha glória guerreira, mas interesses e pulsões mais baixas. Assistimos neste momento, com o primeiro quartel do XXI consumado, a um retorno ao espírito guerreiro e a uma cultura da glória. É uma farsa, mas esta não deixa de ser real. Um desejo de guerra e uma de busca da glória começam a desenhar-se nas pulsões de muitos rapazes e jovens homens do sexo masculino. Fariam bem em meditar o haiku que Bashô escreveu perante a ruína da glória de três gerações de Fujiwara: ervas do estio / eis tudo o que resta / do sonho dos guerreiros.
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