Acabei de passar os olhos pela imprensa diária. Os olhos, pobres deles, bocejaram e disseram-me: não me podes oferecer novidades realmente novas? Contemplei-os e respondi-lhe: não há nada de novo sob o Sol. Eles encolheram os ombros e retrucaram: então por que nos submetes a esta tortura diária de ver as novidades que nunca são novas. Porque, respondi-lhes, não suportariam novidades efectivamente novas. Nem eles, nem eu, mas esta confissão foi omitida. Devo manter algum prestígio perante os olhos, mesmo que sejam os meus. Tenho uma tarefa para realizar com urgência, mas não tenho paciência para o que é urgente, nem vontade de realizar o que devo realizar. A vida é um desacerto. Quando tenho paciência para o urgente, não existem urgências. Quando tenho vontade de realizar qualquer coisa, não há que fazer. Não sei se já sonharam semiacordados. Depois de almoço, acontece-me não poucas vezes. O sonho repete-se, não sem prazer, confesso. Sonho com uma certa mulher, não como ela é agora, mas como seria neste momento se tivesse dois terços da idade que tem, sendo quem é, mantendo o mesmo nome, a mesma identidade, o mesmo tom de voz, o mesmo olhar. Ao escrever dois terços constato que o sonho terá uma natureza matemática. Sim, é um sonho matemático, no qual os meus olhos se confrontam com uma novidade que nunca viram, mas que desejam ver e, de certo modo, vêem, através do expediente de um número fraccionário. O que me atormenta, porém, é não saber se aquilo que eles vêem – sim, um corpo desejável e, por que não dizê-lo, desejado – é visto quando eles estão acordados ou quanto estão adormecidos. Estes estados intermédios mergulham-me numa penumbra da qual não sei como sair, logo eu que sou um adepto de ideias claras e distintas. Não sei, por isso, a quem devo repreender. Se aos meus olhos, se aos meus sonhos semiacordados. A mim não, por certo, pois eu sou um mero paciente: sofro os desmandos. Ora dos meus sentidos, ora dos meus estados oníricos. Não tenho mão neles. Caso tivesse, punha-os na ordem. Vou ler o jornal ou, talvez, sonhar semiacordado, mesmo que os dois terços sejam eliminados e o objecto do sonho se apresente com a idade que tem, na sua mais pura unidade.
Sem comentários:
Enviar um comentário
Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.