quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

A queda

Depois de alguns dias sem caminhar, aproveitei uma pequena trégua para deambular pelos sítios do costume. Na verdade, procurava sinais da tempestade nocturna. Durante parte significativa do percurso, nada indicava que um vendaval tivesse passado por aqui. Até que, no cruzamento de duas ruas secundárias, numa zona habitacional, encontrei uma árvore tombada, as raízes fora de terra, o tronco e os ramos deitados na estrada. Contemplei-a durante instantes, como se prestasse tributo a um ser que merece respeito. Segui caminho, procurando outros sinais, mas só aquela árvore, presa na sua inocência, fora vítima da intempérie. Talvez, a esta hora, os serviços municipais já a tenham removido, depois de a esquartejar. Daqui a uns tempos, no seu lugar, será plantada outra. Haverá de crescer, enquanto a presença da que caiu desaparecerá da memória de quem se cruzava com o seu silêncio e a sua sombra. A vida é uma máquina de substituições. Olho pela janela. O bosque da escola aqui ao lado está intacto, também a grua que assiste a um prédio em construção, bem como o anúncio a uma cadeia de hambúrgueres. É um mistério a decisão que faz com que certas coisas caiam e outras se mantenham em pé.

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