Deverias escrever de outra maneira. Por exemplo, usar parágrafos. Não me agradou o imperativo – o deverias – e, muito menos, a sugestão. Uma regra desta casa é não haver parágrafos. Os parágrafos existem para organizar ideias, separando-as e hierarquizando-as. Contudo, estes textos não têm ideias. Como é que se pode separar e hierarquizar aquilo que não existe? Não pode. Se não são ideias, então o que é aquilo que ocorre nestes textos? Franzi o sobrolho e respondi: isso mesmo, ocorrências. Destes textos pode dizer-se aquilo que nos noticiários é dito após um dia ou uma noite de temporal: a protecção civil contabilizou mil quatrocentas e vintes e três ocorrências entre as dezoito horas de ontem e as doze horas de hoje. A diferença é que estes textos não são tempestuosos, por isso têm muito menos ocorrências. Há dias que só têm uma ocorrência e, em outros, amontoam-se três ou quatro ocorrências, o que está longe de ser digno de referir como tempestade. Ideias implicam uma delimitação e uma clareza daquilo que é pensado e transposto pela linguagem para o espaço público. Ora, naquilo que aqui é escrito não há delimitação, nem clareza, nem distinção. Há impressões, sugestões nascidas na imaginação, na memória ou na sensibilidade – isto é, nos sentidos – mas não há argumentos, tão pouco conceitos. Ocorrem frases como ocorrem ventanias. Ocorrem palavras como ocorrem trovões e relâmpagos. Só isso e para isso é dispensável qualquer parágrafo. Nada do que aqui é dito merece uma hierarquia e tão pouco uma organização. As palavras amontoam-se ao acaso, mas o acaso, sendo benévolo, faz parecer, por vezes, que elas se organizam em frases e que estes têm sentido. Uma aparência.
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