Há pouco, numa outra circunstância, escrevi a expressão o borboletear do amor. Não o devia ter feito. A expressão é insípida e o amor apenas borboleteia na Primavera, coisa de que estamos longe. No Inverno, como um urso, o amor hiberna, poupa energias, prepara-se para a sagração da Primavera, para o ritmo frenético das bacantes, para os decretos de Diónisos. Por agora, reina Apolo, com o seu olhar glacial e a altivez de quem não sofre – pura ilusão – dos desmandos do corpo. Não foi o amor que me levou, antes da hora de almoço, a borboletear pelas ruas. Foi uma atenção de S. Pedro que suspendeu a chuva e me enviou uma mensagem privada. Dizia-me: se queres ir andar, põe-te a caminho. Tens meia-hora para vagueares pelas ruas. Depois, acrescentava, mando chuva. A Terra está demasiado suja e a água que tem caído ainda não foi suficiente – nem lá perto – para a lavar. Note-se que os travessões para isolar nem lá perto não foram da minha lavra. Vinham mesmo na mensagem do santo. E eu aproveitei a meia hora e pus-me a caminho. Cheguei a casa instantes antes de recomeçar a chover. Ergui um polegar para o céu. S. Pedro piscou-me o olho e disse-me: um dia destes, quando me cansar de mandar chuva para braquear a Terra, vamos beber um copo. Claro, respondi. Ele entrou para o seu gabinete de CEO do clima e eu sentei-me a escrever este rol de mentiras.
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