Lidar com os livros tornou-se um trabalho difícil. Uns, sem vergonha, diminuem a letra para zombar com os olhos. Outros, de onde o pudor e a contenção foram banidos, engordam, engordam de tal maneira, que mostram aos braços a falta de ginásio. Amigos de outros tempos, eles estão a tornar-se inimigos declarados, como se tivessem declarado guerra, apenas com o fito de humilhar. Não compreendo qual é o seu propósito. Noutros tempos, qualquer livro tinha por objectivo ser lido. Hoje, isso foi substituído por um desiderato estranho, o de me rebaixar, mostrando-me a falência do corpo e, esperam eles, do espírito. Tento negociar com eles. Riem-se. Peço-lhe que aumentem a letra. Respondem que, se o fizerem, ficam muito pesados, e eu não tenho braços para os segurar. Se lhes peço para emagrecerem, dizem logo que com letras tão magras, não serei capaz de ler uma linha. A solução, digo-lhes, é substituir livros em papel por livros electrónicos, onde se pode ter o melhor de dois mundos. As letras aumentam e os livros não engordam. Começaram a soprar como gatos assanhados. Encolhi os ombros. Perante a minha indiferença, tentaram outra táctica: e o prazer em tactear o papel, a contemplação das capas, etc., etc. Não me comovem, respondi, e, acrescentei, chegou a altura de pouparmos as árvores. Perante a minha firmeza, dois desmaiaram e uma pilha de uns trinta desabou. Agora, arruma, ouvi. Arrumei.
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