quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Efemérides e tautologias

Como foi possível a alguém tão dado a efemérides ter passado em branco uma de grande dimensão? Mistérios que se ocultam na cave da consciência. A efeméride só me chegou à mente quinze dias depois, exactamente hoje. Deve haver algum problema nas vias de comunicação. A efeméride cumpriu-se no final do dia 31 de Dezembro de 2025. Está completo o primeiro quartel do século XXI. Já lá vai um quarteirão de anos e, para ser fiel à verdade, o mundo não parece ter melhorado. Pela minha parte, só posso ter piorado. Uma prova disso é ter usado o termo quarteirão. Não se aplica aos anos, mas, por exemplo, às sardinhas. Quero um quarteirão de sardinhas. Digo isto, mas sem experiência própria. Nunca comprei um quarteirão de sardinhas e, tanto quanto consigo recordar-me, nunca comprei sardinhas. A razão pela qual o quartel se aplica aos anos e o quarteirão às sardinhas é-me desconhecida, mas penso que as sardinhas não ficarão em pé de guerra se dissermos, na banca do peixe, «dê-me um quartel de sardinhas». Também os anos não passarão a nadar mais depressa se se disser o primeiro quarteirão do século XXI. Que modo tão estúpido de comemorar a efeméride do primeiro quartel do século XXI, pensará, e com razão, quem ler estas linhas. Quando o talento é escasso e o dia está sombrio, chuvoso, pouco amigo de ideias brilhantes, uma pessoa escreve o que escreve — passe a tautologia — e a mais não é obrigado. Além de efemérides, o autor — mas não eu, o narrador — tem uma inclinação por tautologias. Crê firmemente que toda a coisa é igual a ela própria: A é igual a A. «Pão, pão, queijo, queijo» é uma dupla tautologia, e quem a profere sente-se ufano, senhor de uma clareza — e, por certo, de uma clarividência — que lhe incha o ego e o afoga no mar morto do orgulho. Por mim, o pão é, ao mesmo tempo, não pão, bem como o queijo é não queijo. Também as efemérides contêm em si as não efemérides e, por isso, passam despercebidas. O mau tempo continua. Estou a precisar de fazer caminhadas, para clarear o espírito e não escrever o que escrevo. Chove!

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