segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Estado de sítio

Estou cansado destes dias de chuva. Um pouco de tristeza não fica mal ao Inverno, mas depressões atrás de depressões tornam-se uma ameaça à saúde mental de qualquer um, mesmo daqueles que têm o Verão por inimigo irreconciliável. O calor enlouquece as pessoas, o tempo cinzento deste Inverno, porém, deprime-as. Caminham pelas ruas como fantasmas à procura do corpo que perderam. Ninguém sorri; são escassas as palavras que se trocam; ninguém tem vontade de erguer os olhos do chão. Que dramático, dizem-me. A realidade não é tão feia quanto é aqui descrita, acrescentam. Encolho os ombros e penso, sem sorrir, que a realidade é sempre pior do que aquilo que se pensa. Talvez devesse ir ler o ensaio de Georg Jellinek sobre o optimismo de Leibniz e o pessimismo de Schopenhauer, para descobrir se tenho motivos para mudar de ponto de vista. Concluo, porém, que não valerá a pena. Lembro-me de que Leibniz defende que vivemos no melhor dos mundos possíveis, o que me parece a mais pessimista das opiniões que se pode ter sobre aquilo que nos é possível. Bocejo. Ir a Lisboa e voltar cansou-me. A capital estava com uma tonalidade fria, como se a vida a estivesse a abandonar e se anunciasse, no horizonte, a aldeia que, no fundo, deseja ser.

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