Recordemos a resposta que Jesus dá à questão da legitimidade de pagar imposto à autoridade romana: Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. A frase é notável porque tem permitido as mais desencontradas respostas. Na sua natureza lapidar parece que naqueles dias seria claro o que, neste mundo, pertence à autoridade política e o que pertence a Deus. O estranho é que dois mil anos depois essa clareza desapareceu. Qual é o âmbito das nossas dívidas? O que pertence ao poder temporal e o que pertence a Deus? Num mundo laicizado e com clara separação entre os domínios do político e do religioso, o que pertence a cada um tornou-se obscuro. Esta constatação permite pensar duas coisas diferentes sobre a resposta de Jesus. Por um lado, como este texto parece sugerir, terá havido um obscurecimento, ao longo do tempo, daquilo que era claro naqueles dias. Contudo, é possível pensar de uma outra maneira. Também, naquele tempo, a resposta não era mais do que uma pergunta e uma injunção. Perguntava, em modo de afirmação, sobre o que pertence ao domínio da política e o que pertence ao domínio da vida espiritual: O que pertence a César? O que pertence a Deus? A injunção é de, perante as duas questões, investigar o que cabe a cada um. A frase não seria então uma resposta lapidar, mas um programa epistémico que visava descobrir como os homens se devem relacionar com a obediência política e com o sobrenatural.
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