Olhei para a secretária e, com uma estranha náusea, vi-a desarrumada. Para que a náusea não se tornasse ainda mais estranha, comecei a pôr as coisas nos respectivos lugares. Em breve, o caos tornou-se um cosmos. Senti-me, então, como um deus. Não um deus criador, mas uma divindade ordenadora. O mais correcto seria dizer: um deus arrumador. Portanto, um deus de segunda ordem, que tem de fazer os trabalhos servis, usando as mãos para que tudo volte para onde deve estar. Talvez o sentimento de ser-se um deus arrumador seja hiperbólico. Arrumador, sim; deus, não. Os deuses não arrumam, pois a sua presença impõe, por si só, uma ordenação das coisas que não permite sequer melhoria. É perfeita. Talvez, pensei, não passe de um empregado doméstico, cuja função é arrumar aquilo que desarrumo, e desarrumo para ter de arrumar, uma forma de manter a minha função como necessária, e encontrar um emprego que me permita a ilusão de ter serventia nesta vida. Vejamos, duas caixas de óculos, uma chave-de-fendas, uma garrafa de água, um aparelho para mediar a tensão arterial, um scanner, uma caixa de auriculares, dois fios para carregar dispositivos digitais, três pilhas de livros e uma coluna. Isto, para além do portátil, do monitor a ele ligado, do rato e do teclado onde escrevo. Agora que tudo isso está no seu lugar, sinto uma sensação de angústia perante o vazio que tomou conta do espaço. O melhor é trazer tudo de volta, deixar as coisas ao acaso. Quando sentir uma náusea, torno a arrumar, até que a angústia do vazio volte. Cada um é Sísifo como pode.
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