quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Cavalo de Tróia

Ainda na primeira página de Le Cheval de Troie, Paul Nizan escreve: Era o tempo que precedia o Verão dos astrónomos: era já Verão. O romance foi publicado em 1935, ainda não se falava – imagino que não – de aquecimento global e de alterações climáticas. A escritor regista, antes, uma perpétua revolta da natureza contra a razão. O Verão racional dos astrónomos e o que a natureza propicia não coincidem. Nesse desajuste, existe uma probabilidade de compreender o mundo  como dotado de liberdade. Esquiva-se aos ditames da razão e faz o que lhe apetece. Antecipa ou adia uma estação só porque resolveu juntar uma série de condições e deixar outra série de lado. Lá estás tu a antropomorfizar, diz-me a minha mente. Ela é pouco imaginativa e essa peculiaridade impede-a de ver as coisas como elas podem ser. Muitas vezes, tenho de recorrer a outra mente, mas não sei de quem, para ultrapassar os limites com que a minha foi dotada. Essa outra diz que a minha suposição é muto plausível. Dotar a natureza de vontade e livre-arbítrio não é uma antropomorfização, mas descrever a realidade. E quando se atribui livre-arbítrio ao homem está-se apenas a fazer uma naturalização. As propriedades que, supomos, nos diferenciam, não nos diferenciam, apenas mostram que somos seres da natureza e que as nossas características mais próprias não nos pertencem, mas são uma partilha generosa que é feita connosco. Seja como for, este ano, o Inverno da natureza e o dos astrónomos coincidem. Está um dia invernoso, com frio e chuva. Um céu cinzento lança um véu taciturno sobre a cidade. Talvez para cobrir o Cavalo de Tróia que está cá dentro, mas que ainda não vemos. É sempre assim que Tróia é derrotada: não vê o que está diante dos olhos.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.