Por um acaso, como tantas vezes me sucede, esbarrei num artigo de José Régio, de Janeiro de 1947, no Mundo Literário. A leitura é penosa, não pela qualidade de escrita de Régio, tão pouco por ser um texto que caminha para os oitenta anos. A pena deriva de uma constatação simples: um indisfarçável provincianismo. Ainda por cima, esse provincianismo não é uma marca do autor, mas de um país. Aquilo seria o que de melhor se faria neste canto esquecido da Europa. Apesar de ser um artigo sobre literatura e crítica literária, o país que éramos, com as suas tricas irrelevantes e a sua pequenez, estava ali todo, como se cada linha fosse o símbolo de um ensimesmamento limitante a que se estivesse irremediavelmente condenado. E Régio não era um escritor de segunda ordem. Pelo contrário. Numa obra de 1914, o espanhol Ortega y Gasset escreveu a sua mais célebre frase: Eu sou eu e a minha circunstância; e, se não a salvo a ela, não me salvo a mim. O provincianismo que se manifesta no texto de Régio – e em tantos outros da época ou posteriores – é que Régio era ele e a sua circunstância, e esta tinha mais peso no que escrevia do que o próprio autor. Régio não salvou a sua circunstância, mas o problema não residirá tanto nele, mas na ilusão que pulsa na frase de Gasset. Ninguém salva a sua circunstância. Interage com ela, mas é-se mais paciente do que agente nessa relação. Um dia – por vezes, como se fosse um milagre – a circunstância muda e os homens entoam loas a si mesmos, imaginando-se como agentes dessa mudança. Uma fantasia. Melhor explicação seria dizer que a velha circunstância se cansou de si mesma e deu lugar a uma outra. Voltando ao texto de Régio: Eis por que até certo ponto me surpreende o relativo silêncio mantido à roda de dois livros notáveis, — dos mais notáveis que em seu género têm aparecido entre nós há um bom par de anos. Refiro-me a «O Pensamento Filosófico de Leonardo Coimbra», de José Marinho, e ao primeiro volume das «Reflexões sobre o Homem», de Augusto Saraiva. Passados estes anos, poucos sabem quem foi José Marinho e ainda menos Augusto Saraiva. A notabilidade dos autores vinha mais da circunstância do que deles próprios, e a circunstância era inequivocamente periférica, provinciana, a circunstância de um pequena tribo esquecida junto ao oceano.
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