Enquanto contemplo, a partir da cadeira do escritório a paisagem exterior, um bricabraque de sensações visuais, onde os devaneios humanos se misturam com pequenas erupções da natureza, penso na distância que há entre os pequenos contos e as grandes narrativas, romances com muitas centenas de páginas. O conto curto é um tributo à vida breve, o romance palavroso, por melhor que seja o romancista, representa um exercício de desconformidade com a vida. Por mais anos que um ser humano viva, a sua é uma vita brevis. Não passa de um vislumbre do que poderia ser uma vida que obedecesse ao desejo. O conto detém-se na vida como ela é, o romance é fruto de um desejo, o desejo do que não se tem, uma compensação para o escasso tempo que é dados aos homens. Ontem, numa crónica de jornal, alguém lamentava o peso que, nos dias que correm, a narrativa romanesca tem. Engordou de tal modo que quase fez desaparecer sob o seu corpo outras formas de literatura, a poesia e o teatro. Imagino que isso seja uma necessidade da espécie, nesta era. Será isso o que pensam as editoras e as livrarias. É o que o mercado lhes diz. Numa história jocosa, alguém se ria daqueles que afinam o gosto gastronómico pela bitola de especialistas em pneus. O mesmo riso se deve aplicar aos que afinam o gosto literário pelos especialistas em mercados. Nisto, porém, não há censura nem aos especialistas em pneus nem aos especialistas em mercados. Eles distribuem as suas estrelas com denodo e seriedade. A vida, porém, é outra coisa e, ainda por cima, breve, apesar da arte ser grande: ars longa, vita brevis.
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