Durante a manhã o Sol – melhor, a luz solar – dignou-se mostrar o rosto para quem vive aqui. Brilhou, faceto e risonho. Agora, porém, escondeu-se atrás de umas nuvens escuras e ameaçadoras. A conclusão inevitável diz que a natureza é volúvel. Não sabe o que quer e, ao contrário das nossas expectativas, faz o lhe apetece, enquanto nós protestamos ou agradecemos, caso lhe tenha dado na veneta contemplar-nos com um ligeiro agrado. Por aqui ninguém diz veneta, mas, antes, vineta. Certamente, um linguista explicaria o caso, coisa que não consigo. Olho pela janela. Ao longe, o hospital apresenta-se de cara lavada, depois de ter sido pintado. A brancura actual contrasta com o cinza-negro dos fungos que cobriam as paredes. Mais perto, o bosque da escola vizinha ainda não cresceu o suficiente para tapar um anúncio luminoso de uma cadeia de hambúrgueres. Aguardo essa hora de ocultação. Nada contra as cadeias de fast-food, cada um come o que quer ou o que pode, mas perturba-me um pouco a poluição visual. Não tarda, terei de sair para um encontro com a realidade. É desagradável, mas não podemos viver continuamente num mundo sem realidade, um mundo sofredor de uma falha ontológica capital, um mundo que não exista. Por isso, por muito que custe, uma vez por outra há que entrar pela realidade dentro e lidar com ela, como se lida com um animal selvagem. Este é o meu problema, nunca lidei com animais selvagens e mesmo com os domésticos, não tenho grande currículo. Também é verdade que um narrador não tem currículo de coisa alguma, a não ser das narrações que faz. E essas são o que são. Não há como uma tautologia para concluir um texto. Pelo menos, aos sábados.
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