Um dia de sol, Deo Gratias! Já há muitos dias que não caminhava. Aproveitei a boa disposição de S. Pedro. Saí de casa e antes de me pôr a caminhar, dei um salto ao pavilhão da escola aqui ao lado e depositei, depois das formalidades, o voto na urna. Enterrei-o, mas ele ressuscitará anónimo depois das dezanove horas para ser contado com todos os outros que, como ele, foram sepultados naquela caixa de esmolas cívica. Senti pena de quem estava nas mesas a assegurar o processo. Um pavilhão enorme, gélido, sem possibilidade de aquecimento comportável. Também eu estive em mesas de voto, mas isso foi há muitas décadas e o pavilhão – também era um pavilhão escolar – tinha chão de madeira e uma temperatura amena. Estar ali, naqueles dias, era uma festa, pois vivia-se um tempo novo, inesperado, feito de expectativa, como se fosse possível o advento de um mundo novo. Hoje não há expectativa de que chegue um mundo novo, esse Godot que atormenta as mentes fantasiosas e inexperientes. Por isso, para além de piedade pelo frio, senti uma dívida de gratidão por quem ali estava, independentemente das motivações. Saí do pavilhão e pus-me a caminhar. O mais espantoso foi perceber que, neste domingo, havia muito mais gente a fazer caminhada do que nos outros. O bom tempo chamou as pessoas e elas responderam. Só não encontrei os gatos que, numa certa rua, costumam estar a apanhar sol. Continuavam recolhidos, temendo que a luz que viam fosse apenas a fantasia de um grande simulador, o efeito do desejo humano, não a pura realidade. São mais sensatos do que os homens que esperam a luz de mundos novos.
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