Em Erfahrung und Armut (Experiência e Indigência, na tradução de João Barrento), Walter Benjamin, a certa altura, como estratégia retórica, coloca uma série de questões. Deixemos a série de lado e fiquemos com uma, e apenas uma: um provérbio serve hoje para alguma coisa? O pensador alemão sabe que, já no seu tempo (1892–1940), não servia para grande coisa. Hoje serve para menos, muito menos, pois o grau de mudança é muito mais vertiginoso. Um provérbio é uma condensação de uma sabedoria antiga, que se transmitia de geração em geração. Isto pressupunha que as variações na vida quotidiana eram muito lentas e que a própria moralidade era eterna. A contínua revolução tecnológica torna obsoleto o saber de ontem e, como fruto disso, cria a ilusão de que as regras morais são elas mesmas substituíveis por novas, mais adequadas ao espírito do tempo. Ora, isto torna-nos não apenas desenraizados, sem contacto com os que nos precederam, mas exploradores de um mundo que não compreendemos e que nunca viremos a compreender, pois dele foi erradicada a lentidão que nos dava a aparência de que tudo era permanente. Somos, ao mesmo tempo, exilados num país estrangeiro e viandantes perdidos no caminho, peregrinos que desconhecem a que santuário se dirigem ou se existe mesmo um santuário.
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