Será isto uma efeméride digna de anotação, mesmo num sítio desqualificado como este? Refiro-me ao dia de hoje, em que se atinge exactamente 2/3 do mês de Setembro. Não vale a pena fazer notar o óbvio. A generalidade das pessoas está-se nas tintas para o acontecimento. Quem quer saber que só falta 1/3 do mês para este acabar, como acabam todos os meses, de joelhos perante o que chega? Este narrador, todavia, não faz parte da generalidade das pessoas. Não partilha com elas a sensatez de apenas darem importância ao que é importante e deixarem de lado as irrelevâncias. Eu, pelo contrário, centro-me no irrelevante. Colecciono irrelevâncias como, no ano de 1966, coleccionei os cromos do Mundial de Futebol, aquele em que Portugal obteve a sua melhor classificação de sempre. Não, a equipa portuguesa não era irrelevante, mas coleccionar cromos era-o. Uma coisa da infância. Hoje, porém, já não colecciono cromos de Mundiais de Futebol, até porque seria uma colecção sem fim. Em 66, disputaram o torneio 16 selecções; era um campeonato ultra-seleccionado. O último que se disputou tinha 48, o triplo. Se coleccionar cromos de 16 selecções era uma irrelevância, fazê-lo com 48 seria uma tripla irrelevância. Por isso, prefiro coleccionar efemérides que ninguém reconhece como tal. É um destino como qualquer outro. Por exemplo, um jogador de futebol colecciona golos e quer ter mil na sua caderneta. Eu, pelo contrário, somo efeméride atrás de efeméride; talvez já tenha umas dez mil, mas falta-me caderneta para as colar. Ninguém fabrica cadernetas para as coisas mais importantes, aquelas que merecem ser encadernetadas. Seja como for, falta ainda 1/3 de Setembro para este acabar. Um suplício.
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