Nomear as coisas é uma arte de difícil consecução, pensei
hoje ainda a tarde era luminosa. Quantas vezes, neste estranho Outono, vou
pelas ruas e fico espantado com as cores que, aos poucos, tomaram conta das
folhas do arvoredo? E se eu quero dizer esse espanto e partilhar o prazer que vermelhos,
castanhos, ocres, amarelos, violetas ou rosas me deram, a empresa morre de
imediato na impossibilidade de nomear as árvores que suportam ainda nos seus
ramos tais catálogos vivos de cor. Estou-lhes grato, digo de mim para mim, mas
não sei o seu nome e temo que, um dia, elas não me perdoem a ofensa. Juro então
que irei dedicar algumas horas ao reconhecimento das árvores, mas logo penso
que talvez seja tarde, que o meu tempo é mais o do esquecimento que o de
adquirir saber. E assim as árvores, essas que tanto prazer me dão, entram na
noite que é a terra dos não nomeados. Ali são todas iguais, todas árvores, que
se confundem na tonalidade pardacenta da minha ignorância.