quinta-feira, 6 de setembro de 2018

As lentes Mercedes


Um oftalmologista desavisado decidiu receitar-me óculos com lentes progressivas e assim substituir os três pares de óculos que compunham a minha colecção. Uns para ler, outros para o computador e outros ainda para ver ao longe. Ainda argumentei que, provavelmente, não me iria dar bem com a progressividade – ou o progressismo – das lentes, mas ele insistiu, perorou sobre as manobras que tinha de fazer para gerir tantos óculos, e eu cedi. Vendo-me vencido acrescentou que tinham de ser umas lentes de uma certa marca especial e não dessas que saem mais em conta. Deu uma explicação técnica que me soou como se fosse chinês. Vendo o meu ar incrédulo ou estúpido, disse-me: olhe, é como comparar um Mercedes com um Renault 5. Num Renault 5 também vai a Lisboa, mas não é a mesma coisa. Pois não, assenti, entre divertido e ingénuo, imaginando-me já a conduzir umas lentes topo de gama. E lá comprei os óculos com lentes tipo Mercedes. O resultado nunca deixa de me espantar. Se quero ler, deixo o Mercedes na garagem e vou num velho Renault 5, de lentes riscadas e que só serve para ver ao pé. O pior, porém, não é isso. Há pouco decidi ir de lentes Mercedes à rua e pensei que tinha enlouquecido. O que era uma rua normal, agora parecia-me estar cheia de crateras. Ao avançar, via um grande desnível, calibrava o pé para esse desnível, mas não havia cratera nenhuma e o passo saía em falso. Por duas vezes ia caindo, enquanto tentava andar sem espreitar para o chão. Ao fim de cinco minutos, decidi que o melhor era pôr os óculos de lentes Mercedes de lado e andar mesmo a pé. A viagem é mais segura e Torres Novas deixou de me parecer uma cidade da Síria após um bombardeamento.