Frequento alguns minutos por dia uma rede social, cujo nome não interessa para o caso. E minutos são mesmo minutos, e estes são poucos. Nunca lá posto nada. Passo lá para ver o estado das coisas. Na verdade, não passo de um voyeur, embora muito pouco praticante. O que acho mais interessante — e interessante significa, não poucas vezes, deprimente — é a cultura masculina que por lá impera. Desde a importância da testosterona ao tamanho do órgão externo do aparelho reprodutor masculino, passando pelas modalidades de fazer qualquer mulher ficar caída de joelhos perante um homem ou pela forma de submeter o mais temível inimigo. Isto para não falar dos machos alfa e dos machos sigma. Na verdade, aquela fauna parece pertencer aos que, durante o desenvolvimento fetal, sofrem privação intencional de oxigénio e exposição a condições extremas para limitar gravemente a sua capacidade cognitiva e estatura (pelo menos, a moral). Sim, claro, estou a referir-me ao Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, e aos Ípsilons. Tenho, cada vez mais, um sentimento de piedade para com as mulheres, pois são cada vez mais Betas e Alfas, cada vez mais inteligentes, mas, no seu horizonte, só vêem candidatos a marido da classe Ípsilon. Se descobrem um Gama ou mesmo um Delta, julgam que lhes saiu a sorte grande. O pior é que os Ípsilons, pensando-se os mais elevados Alfas, chegaram ao poder em não poucos sítios, ditam as regras e têm por objectivo tornar todos os outros mais estúpidos do que eles. Sim, aquela rede social — as outras não conheço — parece uma fábrica de estupidez em laboração contínua, a trabalhar por turnos, sem domingos, sem dias feriados, sem férias. Eu próprio, que cheguei a ser, a muito custo, um Delta, cada vez me sinto mais um Ípsilon. Dos autênticos.
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