terça-feira, 22 de setembro de 2026

Um telefonema

Achei-o sem o vigor de há um mês, quando nos encontrámos em plena época balnear, para uma daquelas sortidas de grupo em busca do prazer da comida e, por influência de um certo deus pagão, da bebida. Refiro-me ao meu amigo Lodovico Settembrini, o padre Lodo, como é conhecido por todos os que lidam com ele. Deu-me os parabéns pelos 18 anos da minha neta. Já tinha falado com ela, mas não pode vir jantar com a família, disse-me. Tem estado com uma virose e ainda não recuperou. Não se esqueceu, porém, de uma velha mágoa. Não ter baptizado nenhum dos meus netos. Eu ri e repeti o que lhe disse outras vezes, os poderes dos avós sobre certas coisas são escassos. Confluem muitos interesses e, em última análise, não somos nós que decidimos. Sabe, retorquiu, na verdade é irrelevante quem foi o oficiante. O sacramento vale por si mesmo e não por quem o aplica. Ah… exclamei, hoje está muito benevolente, mas dessas coisas sei pouco ou nada. Sim, sempre teve um espírito pouco dado a estes mistérios. Sou um velho jesuíta, prosseguiu, talvez ande um pouco temeroso com aquilo que um dia destes terá de chegar. Teme a morte, perguntei-lhe, em jeito de provocação. Cale-se, respondeu. Temo não ter vivido como deve ser. Mas não quero falar sobre esses assuntos. Talvez, um dia destes, nos possamos juntar num certo restaurante alentejano, que muito bem conhecemos. Um bom tinto abrir-me-á a alma a essa meditação perante amigos. Agora, quero desejar-lhe um dia feliz. Um dia destes, ligue-me para saber se a virose já se foi e se tenho o campo livre para meditações num templo gastronómico. A vida não dura toda a eternidade.

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