sábado, 14 de novembro de 2020

Não tenho ideias, tenho desarranjos fisiológicos

Um acaso levou-me a ver um vídeo sobre a área em que cumpro a corveia que me permite enfrentar a gélida necessidade. Ao fim de trinta segundos, tinha reconfirmado que aterrei num país estrangeiro, com uma língua fruste e onde as pessoas capricham em vestir-se mal, como se isso fosse garantia para a qualidade do que fazem. Por princípio, não atento no que vestem, mas, por vezes, a exuberância do mau gosto é de tal ordem que sou obrigado a ver aquilo que evito ver. Sempre se dirá que não há correlação – utilizar esta noção estatística dá logo um ar científico à arenga – entre o que se é e a forma como nos apresentamos, que os grandes génios não atentam a essas coisas. Claro, mas não há coisa pior do que querer ter a aparência de um grande génio não porque se o seja, mas porque se imita o desleixo com que eles apedrejam os outros com a sua figura. Além do mais, o exterior nunca deixa de ser uma emanação do interior. Deveria ter apagado estas considerações, nas quais me deixei cair, talvez motivado pelo processo com que o corpo digere o almoço de sábado. Muitas das nossas ideias. Refaço, muitas das minhas ideias, se é que lhes posso chamar ideias, nascem de processos fisiológicos. Uma digestão mal feita, uma vibração indevida na batida cardíaca, um atraso na ida à casa de banho, um ataque de sono, um desvario de qualquer hormona que decida, sem me consultar, afastar-se do que é esperado e outras coisas do género de que omito, por pudor, a nomeação. Para ser honesto, eu não tenho ideias, nem pensamentos, nem argumentos, tenho apenas reacções a desarranjos no corpo. O que me aborrece, porém, é a acácia que tinha até ontem um belo fato de folhas amarelas, de um amarelo levemente torrado, a lembrar tâmaras ainda não completamente maduras, mas que impelida por algum desarranjo hormonal, se começou a despir, deixando ver uns membros raquíticos. A beleza é um exercício difícil.

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