quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Falar sozinho

Hoje fui ver o mar. Consultei as aplicações meteorológicas e elas informaram-me de que, onde pretendia ir, haveria chuva. Pensei que os profetas se podem enganar. E enganaram-se. Almocei diante das ondas, bravias e indispostas, mas com poder hipnótico. Tive de me concentrar no que se passava à mesa, para os olhos não serem arrastados por aquele ir e vir furioso. Depois de almoço, mudei de praia e aí havia apenas uma ondulação benigna e escolas de surf na sua intérmina tarefa de ensinar os candidatos a caminhar sobre as águas. Bem tentam, alguns dão uns passos, mas logo caem. Bem, a queda é o destino de todos, pois haverá sempre um alçapão à nossa espera. Pus de lado as acrobacias dos andarilhos das ondas, e fiquei a olhar o mar apaziguado e pacifiquei-me, sem saber o que pensar perante os mistérios do mundo. O melhor será nada pensar. Foi o que fiz, embora é pouco provável que não tenha pensado em alguma coisa, desde aquela hora até a esta. A nossa mente tem horror ao vazio e, mesmo que o não queiramos, está sempre a borbulhar com ideias. Por vezes, são tão fortes que extravasam e saem pela boca, articuladas em palavras. Estás a falar sozinho, dizem-me. Pois estou, respondo, preciso de fazer higiene ao cérebro e aproveito para deitar fora, expelindo pela boca, as ideias que me inundam. Nem sei de onde vêm, concluo. Não convenci ninguém, mas também não é essa a minha missão.

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