sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Tentações e labirintos

Fui apanhado. O relógio, que não é um relógio, mas uma máquina de vigilância que serve também para informar as horas, participou-me que dormi uma sesta de uma hora e três minutos. Admirei não a denúncia do meu acto ilícito, mas do tempo preciso que ele durou. Eu sabia que não apenas tinha caído na tentação de dormir, como a tinha consumado. Contudo, quando se caem em certas tentações nunca estamos de cronómetro na mão para medir a sua duração. Em alguns casos é impossível, noutros seria desagradável e em alguns, contraproducente. Esta experiência da vigilância electrónica, com informação ao pobre que foi deixado cair na tentação, talvez me pudesse dar também notícia do tempo que duram outras tentações. Não se pense que estou a falar das tentações da carne, pois a carne nunca é tentada. O espírito, sim, é o alvo único das tentações. Mas também aqui não me estou a referir àquelas que levam o espírito a ceder às inclinações do corpo, mas às que são meramente espirituais. Quanto tempo dura um devaneio sobre a maldade dos homens ou a perda de sentido da beleza na arte contemporânea? Estas são das mais terríveis tentações, aquelas que podem perder um homem, levando-o para um labirinto sem o fio de Ariadne. Quem não conhecer uma Ariadne, o melhor é resistir às tentações espirituais, antes que se arruíne no dédalo de um pensamento que tem caminhos que só com ajuda astuta levam à saída.

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