Será um dos capítulos finais mais surpreendentes da história da literatura. Trata-se do Capítulo IV de Pasenow ou o Romantismo, primeiro romance da trilogia Os Sonâmbulos, de Hermann Broch. Tem apenas quatro linhas e reza assim: “Não obstante, dezoito meses depois nasceu-lhes o primeiro filho. Aconteceu. As circunstâncias em que isso aconteceu já não é necessário descrevê-las. Forneceram-se ao leitor os elementos suficientes sobre o carácter de cada uma das personagens, para poder imaginá-las por si”. O “não obstante” refere-se aos obstáculos existentes dentro de Joachim e de Elisabeth, agora marido e mulher, para enfrentarem os factos da vida, aqueles que são necessário para que nasça um filho, pelo menos eram necessários naquela época, os finais do século XIX. Ora, este final remete para o leitor o trabalho narrativo de completar a história, imaginando, a partir do carácter de cada personagem, traçado pelo autor, a vida sexual do casal. Há um claro aviso ao leitor: não se ponha a imaginar coisas que lhe passam pela cabeça ou pelo desejo. A imaginação está drasticamente limitada pelos elementos fornecidos pelo autor. Este concede a liberdade ao leitor, mas de imediato a restringe. É um jogo e todos os jogos têm as suas regras, talvez a única coisa comum a todos os jogos, embora ter regras não seja condição suficiente para algo ser um jogo, pois há outras coisas que também têm regras. O jogo que Broch propõe ao leitor é descobrir as regras que permitiram, ao fim de 18 meses, Elisabeth dar à luz um filho e Joachim ser pai. Não pense o leitor que é fácil decifrar as regras deste jogo, pois, como em todos os jogos, as regras são arbitrárias e nunca deixam de surpreender aquele que as não conhece.
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